24/12/2011

Feliz Natal

Calvin: Eu não entendo como o Pai Natal gere a sua actividade. Como é que ele paga os brinquedos que distribui? Como é que ele paga a matéria-prima que usa para produzir os brinquedos? Como é que ele paga aos elfos? Não tem receitas para cobrir os custos - como é que ele faz?
Hobbes: Deve operar em défice, acho.
Calvin: Claro. Mais cedo ou mais tarde isso vai rebentar e depois quero saber como é que eu fico?

21/12/2011

A beleza (e a estupidez) da simplicidade

Esta ideia é extremamente bela:

É injusto pedir aos contribuintes, que na sua maioria não têm as suas profissões de sonho, que continuem a abdicar dos seus subsídios de Natal para que vocês possam ter uma profissão que não satisfaz nenhuma outra necessidade para além da vossa própria realização pessoal.
Vamos lá pensar um pouco: Para além dos agentes do fisco, sem os quais não haveria contribuintes, que outras profissões devem os contribuintes pagar? Talvez CGP condescenda que os políticos, militares, juízes, polícias... sejam pagos pelos contribuintes. E os médicos? Talvez, se satisfizerem necessidades de contribuintes saudáveis (chamemos-lhe medicina preventiva). Bombeiros? Podemos pagar aos voluntários com reconhecimento social, a somar à realização pessoal já deve dar uma boa recompensa. Quanto a filósofos e cientistas, ou vendem os seus serviços a privados, ou vendem outros serviços em part-time, ou têm "pais ricos", como o filho da D. Maria Adelaide de Carvalho.

Agora mais a sério: Descontando casos patológicos, eu creio que é impossível alguém sentir-se realizado por exercer uma actividade que "não satisfaz nenhuma outra necessidade". Parece-me que o ponto de discussão não é se os crontribuintes devem pagar "profissões de sonho", mas qual o nível de oferta dessas profissões, pago pelo contribuinte, que é razoável ou sustentável. Se os contribuintes pagassem as actividades dos melhores cientistas, filósofos, professores, médicos, economistas, etc. não dariam por mal empregado o seu dinheiro.

Birds

15/12/2011

Jornalistas incompetentes enganam leitores

Disse aqui que estava à espera que o IPDT divulgasse o estudo com base (!) no qual vários OCS portugueses fabricaram títulos bombásticos acerca dos efeitos da "crise" nas intenções de férias dos portugueses. Vejamos alguns desses títulos:

crise põe «travão» às viagens dos portugueses - Agência Financeira
Portugueses cortam nas férias por causa da crise - Expresso
Crise acaba com férias dos portugueses - Público

Agora vejamos o que diz o estudo, entretanto disponibilizado:

«Quando questionados sobre a expectativa de fazer férias fora do local de residência no Natal ou Ano Novo de 2011, 92,6% dos inquiridos responderam que não irão fazer férias e apenas 7,4% responderam afirmativamente. Embora sejam dados muito relevantes, a sua evolução relativamente a 2010 é muito reduzida já que no estudo realizado pelo IPDT no ano passado, 91% não pretendia fazer férias e apenas 9% manifestaram intenções de gozar férias no mesmo período de análise.»


Obviamente, atendendo ao reduzido tamanho da amostra, esta "evolução" de 1,6 pontos percentuais não é significativa, i.e. não se pode rejeitar a hipótese de que a percentagem de portugueses que faz férias fora de casa nesta época seja igual em 2010 e 2011.

P.S. Basta a citação daquele parágrafo do estudo para provar que as notícias saídas no início da semana não têm qualquer sustentação empírica. No entanto, mantenho o que quis dizer no post anterior: a amostra do IPDT não é adequada para produzir estimativas sobre a intenção de viajar da população portuguesa. A propensão para viajar é menor nos idosos e nas mulheres; esta amostra tem 43,4% de pessoas com mais de 61 anos e 67,5% de mulheres.

12/12/2011

As velhinhas ficam em casa?

Estou à espera que o IPDT divulgue decentemente o seu estudo sobre "O impacto das medidas de austeridade nas intenções de férias dos portugueses". Por enquanto, só tenho acesso a uma notícia mais detalhada no Diário Económico e resumos noutros OCS.
O arremedo de ficha técnica publicado no DE diz que a amostra de 422 entrevistas confere um nível de confiança de 95% - brilhante!!! A iliteracia estatística não dá para mais. Depois diz que «os inquiridos são maioritariamente de Lisboa, são mulheres, casadas e têm entre 61 e 70 anos». Se o objectivo é saber a intenção de férias e entrevistam «maioritariamente» donas de casa com mais de 60 anos, estamos conversados.
Nota para o IPDT: é favor consultar os resultados dos inquéritos às viagens dos residentes (INE) e verificar qual a taxa de partida das mulheres com mais de 60 anos.

11/12/2011

As minhas escolhas

Acabou-se a Festa

Vogais, 2011, 16,99€

Se tudo corresse bem, Portugal teria recuperado lá para 2030 o nível de bem estar económico de 2000. No entanto, o autor está pessimista e crê que a economia portuguesa não recuperará o suficiente para pagar a minha reforma :(

Do mal o menos: Portugal continua sendo um dos mais pobres dos ricos. Como escreve o autor, «voltando Portugal ao rendimento per capita e paridade do poder de compra de 1995, ainda ficamos com um nível de vida 75% superior ao brasileiro, 190% superior ao ucraniano e 320% superior ao marroquino».

N.B. Os mais propensos a problemas digestivos não deverão ler este livro antes das rabanadas.

04/12/2011

A matéria da economia

O dinheiro dos pensionistas da banca viajou no tempo: metade veio do futuro para se consumir no presente a pagar o passado. No futuro, essas pensões serão pagas, obviamente, por mais dívida pública ou impostos, o que é a mesma coisa em tempos diferentes.

Esta crónica de PSG lembra-nos qua a economia não se rege pelas leis da matéria - quando se produz algo com um valor superior ao que se consome, gera-se um excedente. Este "milagre" resulta da criatividade humana - capacidade de combinar recursos para gerar outros de valor superior e, obviamente, criatividade para valorizar o resultado da produção.
Felizmente, a criatividade humana não tem limites. Por exemplo, há quem seja capaz de chamar "excedente" ao pagamento de despesas passadas escavando mais um buraco orçamental que alguém terá de tapar no futuro. Faz sentido, se quem receber o dinheiro o utilizar para aumentar a produtividade do seu negócio, por exemplo.
Há ainda quem seja criativo ao ponto de considerar que esse "excedente" poderia ter sido usado para pagar o meu subsídio de Natal. Também faz sentido - com ele eu teria comprado um computador novo, com inegáveis efeitos na minha produtividade bloguística, por exemplo.

27/11/2011

As minhas escolhas

A Chama Imensa

Tinta da China, 2010, 14,30€

Só eles sabem porque não ficaram em casa. Talvez procurem uma Chama Imensa, mas, incapazes de senti-la interiormente, precisam de fazê-la no exterior. O Inferno é o local indicado.

22/11/2011

Fly Emirates

Foto H4K
A estratégia de fazer incidir especialmente sobre os trabalhadores mais qualificados o pagamento dos robalos e alheiras tem riscos associados ao limite de "solidariedade" que os ditos estão dispostos a suportar. É certo que esses trabalhadores, como a generalidade dos seus concidadãos, criaram um contexto de vida que lhes dificulta a mobilidade, mas o reiterado sacrifício fiscal a que estão sujeitos pode ser o incentivo que faltava...
Hoje, como há 50 anos, emigram os que podem ser mais produtivos, os que querem trabalhar mais do que a média. A diferença relativamente a esse período, é que agora são os mais qualificados que têm mais incentivos para fugir daqui. Como diz este texto de Carlos Guimarães Pinto, eles não se importam de trocar o Estado Social pelo valor dos seus impostos. É verdade, são egoístas, mas a solidariedade tem limites.

18/11/2011

Como se constrói a mediocridade - II

Novo texto do Jacarandá, desta vez centrado no empobrecimento da instituição universitária:
  1. «O ensino universitário criou todas as ilusões. Ou delas sofreu. A ilusão igualitária foi uma delas. [...] A selecção e o mérito foram moralmente condenados e politicamente denunciados. A ilusão profissional foi outra. [...] A empregabilidade transformou-se num dos principais critérios de avaliação. A especialização profissional foi desejada e cultivada. Inventaram-se títulos, áreas, diplomas e cursos sem critério nem sensatez, sempre à procura de saídas profissionais de oportunidade duvidosa e expediente fácil. A missão científica da universidade, a permanente procura da verdade e a incansável tentativa de compreender e explicar, foi secundarizada.»
  2. «A cultura geral e a erudição, que deveriam estar presentes em todas as disciplinas, ganharam os tristes estatutos de inutilidade socialmente condenável ou de variante facultativa. As aspirações, certamente nobres e legítimas, à democratização, ao igualitarismo e à vocação profissional consideraram a cultura dispensável. Erro histórico!»

14/11/2011

Como se constrói a mediocridade

  1. «Os Portugueses, por séculos de pobreza, de analfabetismo e desigualdade, tiveram reduzido acesso à cultura. Hoje, as escolas, por obsessão profissional, desdenham a cultura, abandonam as artes e marginalizam a erudição.»
  2. «Um dos obstáculos ao desenvolvimento sempre foi esta atávica vontade de conter a propriedade, de dominar o investimento e de condenar as actividades lucrativas. Em dois séculos, perdeu-se propriedade e investimento, por actos de pura cupidez política ou pessoal.»
De um texto de António Barreto, que pode ser lido na íntegra no Jacarandá.

13/11/2011

O bebé e a água do banho

Caro Álvaro,
Espero que relembre aos seus colegas do Conselho de Ministros o que escreveu em 2010: «esta desvantagem do nosso capital humano, mais do que qualquer grande obra pública, será uma das verdadeiras determinantes da nossa competitividade e do nosso sucesso no futuro». Mostre-lhes este gráfico que publicou em diversos sítios e diga-lhes que têm agora uma oportunidade de se demarcarem de uma política de investimentos de fachada na educação e de encararem o co-financiamento do ensino superior público como um verdadeiro investimento, i.e. com retorno positivo para o Estado. Nas actuais circunstâncias, não serão apenas os professores universitários realmente bons, como você, a emigrar - serão muitos professores a agravar a fuga de cérebros que você aqui ilustrou.

12/11/2011

Pedimos desculpa pela interrupção

O aumento da minha carga de trabalho tem sido mais do que proporcional à diminuição do poder de compra. Ao contrário da RTP, assumo as responsabilidades por esta interrupção e prometo voltar às postagens mesmo sem estarem resolvidos os problemas de ordem técnica.

17/09/2011

Jornalista diplomada nas Novas Oportunidades

Ana Petronilho criou um título noticioso ridiculamente falso:
Portugal é o país da OCDE com mais diplomados no ensino secundário
mas teve o engenho e a arte suficientes para inventar também os dados que sustentariam esta fantasiosa criação:
Em 2009, cerca de 96% do total de população portuguesa compreendida nas faixas etárias dos 25 aos 34 anos e dos 55 aos 64 anos tinha concluído o ensino secundário. São dados do "Education at a Glance 2011", o mais recente relatório da OCDE sobre educação apresentado hoje em Paris. Dados que, para Portugal, representam uma subida de 34 pontos percentuais em relação a 2008.
Qualquer jornalista que tivesse obtido um diploma fora das Novas Oportunidades deveria ser capaz de perceber que a percentagem de diplomados na população não pode aumentar 34 pontos percentuais de um ano para o outro!!!

Agora vamos lá ver qual é a percentagem da «população portuguesa compreendida nas faixas etárias dos 25 aos 34 anos e dos 55 aos 64 anos [que] tinha concluído o ensino secundário», de acordo com dados do tal relatório que a jornalista cita (?):
  • 48% no grupo etário dos 25 aos 34, muito longe da média da OCDE (81%) e apenas melhor do que México e Turquia (42%)
  • 14% no grupo 55-64, estupidamente longe da média (61%) e em último lugar, a 5 pontos da Turquia e a 7 do México

12/09/2011

Estômago

No filme ESTô||||AGO, uma fêmea (representada por Fabíula Nascimento) gostava de comer enquanto copulava, ou vice-versa. Também tenho uma fêmea dessas no jardim, mas as coincidências ficam por aí -- aposto que no final será ela a comer o macho, provavelmente sem tempero, apesar de haver alecrim mesmo ao lado desta hortelã...

Honeymoon, originally uploaded by Beijokense.

08/09/2011

Ignorância cromática

Um jornalista da TSF dizia há pouco que as bolsas europeias seguem em terreno misto -- é mais ou menos o que me acontece a mim desde que começaram as obras para uma estrada nova a 200m da minha casa.
Depois disse algo que me fez soltar a primeira gargalhada do dia: o Dow Jones ontem fechou no verde!

Ó sôr jornalista: http://en.wiktionary.org/wiki/in_the_black

29/08/2011

Polo koñezimento

Este blogue apoia todas as iniciativas que visem promover o conhecimento... com redobrado prazer se for no sentido bíblico da coisa!

Adenda 1-9: Sócrates e Merkel conhecem-se bem.

26/08/2011

A miséria do socialismo

A ler:
Notícias e comentários das últimas horas (...) preconizam transferir recursos dos que sabem criar e gerir riqueza para a Entidade que tem um invejável currículo de destruição de Valor.
A continuar a empobrecer desta maneira o país, sempre por causa do calote das finanças públicas, hão-de explicar depois como irá a economia portuguesa recuperar.
Give liberalism a chance!

Leitura complementar: (um)a definição de socialismo

24/08/2011

Mamografia em Destak

O Destak não será propriamente um OCS de referência, mas isso não o desobriga de cumprir os mínimos no rigor da informação...
A edição de ontem trazia uma pequena notícia «Mamografia posta em causa»:
As mamografias não são necessariamente método de prevenção do cancro da mama. A conclusão é de um estudo feito em seis países da União Europeia, e publicado no ‘British Medical Journal’.
Diz também o estudo levado a cabo na República da Irlanda, Irlanda do Norte, Bélgica, Holanda, Reino Unido e Suécia que a maior taxa de mortalidade causada pelo cancro da mama verifica-se em mulheres com mais de 50 anos e que nunca tinham realizado este tipo de exames.
À primeira vista, há uma contradição entre o título da notícia e a suposta evidência de que a taxa de mortalidade por cancro da mama é maior «em mulheres com mais de 50 anos e que nunca tinham realizado este tipo de exames»!!! Também notei que o Destak considera que a Irlanda do Norte não faz parte do Reino Unido, pelo que a curiosidade me moveu a consultar o artigo do BMJ. Mais do que a mamografia, o que em primeiro lugar se pode pôr em causa é a classificação do Destak como órgão de informação:
  1. O estudo citado não diz que a mortalidade é maior nas mulheres «que nunca tinham realizado este tipo de exames», pelo simples facto de não ter dados que permitam avaliar essa hipótese.
  2. O paper que divulga o estudo refere, por duas vezes, o Reino Unido entre parênteses a seguir a Irlanda do Norte, certamente por considerar que esta pertence aquele. Ficamos ainda a saber que o estudo também foi feito na Noruega, ou seja, afinal o estudo não foi «feito em seis países da União Europeia», mas sim em cinco países da UE mais um fora da UE.
Finalmente, fazendo um serviço público de informação que o Destak não presta, cumpre-me dizer que o estudo não põe em causa a mamografia, simplesmente sugere que esta não é a principal responsável pelo declínio da mortalidade deste tipo de cancro - os principais responsáveis são a evolução dos meios de tratamento e a capacidade de resposta dos sistemas de saúde.

21/08/2011

As minhas escolhas

Desta vez não escolho um livro, mas uma livraria. Chegou há dias à minha caixa do correio a minha primeira compra à Better World Books. O livro que veio morar comigo pertenceu a uma biblioteca universitária e tinha sido requisitado apenas quatro vezes nos seus 55 anos de vida. Ele próprio me escrevera duas semanas antes, contente por vir para Portugal. Espero que ele não me leve a mal por reproduzir aqui parte do email:
You could have picked any of over 2 million books but you picked me! I've got to get packed! How is the weather where you live? (...) Just five months ago, I thought I was a goner. My owner was moving and couldn't take me with her. I was sure I was landfill bait until I ended up in a Better World Books book drive bin. Thanks to your socially conscious book shopping, I've found a new home.
Da livraria tenho a declarar um serviço irrepreensível e... rápido!... atendendo à distância e ao baixíssimo custo de transporte. No total, livro, embalagem e transporte custaram-me nove dólares!

19/08/2011

Qual é a fraude?

Fraude é alguém utilizar o seu estatuto de professor universitário para divulgar uma opinião contrária a todas as evidências empíricas dos estudos de economia da educação e dos relatórios das mais variadas organizações que por todo o mundo têm estudado os benefícios económicos, para os diplomados e para os contribuintes, do ensino superior.
Não nego que a educação gratuita seja um importante recurso político para benefício dos que exercem o poder. Também não nego que tenha alguns efeitos perversos, nomeadamente no desempenho académico. Defendo até que os beneficiários deverão assumir uma maior fatia dos custos que são suportados pelos contribuintes. Mas nada disso permite negar a evidência de que, em média, um diplomado com curso superior terá ao longo da vida um rendimento superior ao que teria se se ficasse pelo ensino secundário. Essa evidência é válida para todos os países onde têm sido feitos estudos sobre o assunto, nomeadamente em TODOS os países da OCDE.
Deixo ao senhor Professor Doutor Nuno Monteiro a mais recente estimativa dos benefícios de ter um curso superior no país onde ele dá aulas. O Valor Actual Líquido de tirar um curso numa universidade menos competitiva varia entre 200 e 300 mil dólares; para os que conseguem um curso numa universidade mais competitiva, o VAL supera o meio milhão de dólares.
Lá como cá, há licenciados em caixa de supermercados. Isso não significa que eles acabam, mas sim que iniciam aí a sua actividade... ao longo da vida, terão sempre melhores oportunidades e maiores salários.

Fonte: de Alva, J. K., & Schneider, M. (2011). Who Wins? Who Pays? The Economic Returns and Costs of a Bachelor's Degree: American Institutes for Research.

17/08/2011

Puta de Catalunha: uma visão sobre a economia turística

A propósito do caso Lloret de Bar, deixo aqui a minha tradução de parte de um artigo de Xavier Roig. O original em catalão pode ser lido aqui.

Se há sector que pode ser moldado pelo poder político, é o turismo. E os governos catalães optaram pelo modelo de turismo barato. Sou dos que acreditam que o turismo faz parte da economia do lixo. Da prostituição social. É nele que se centra a economia dos países que não sabem, ou não querem, fazer mais nada. O que diferencia uma mulher que vende os seus encantos, dum país que vende os seus? O número de pessoas envolvidas na operação. (...) O peso do turismo [na Catalunha] já ascende a 14% do PIB (9% em França, 8,5% em Itália). Somos um país prostituído.

Desde que me conheço que se fala de reconverter o nosso turismo. Gostamos de nos enganar. Falar de "turismo de qualidade" é tão contraditoriamente estúpido como pretender promover a "prostituição virgem". O máximo que se pode almejar é que aqueles que nos visitam tenham um alto poder aquisitivo. E, para solucionar este problema, ainda não se inventou, em economia, nada de novo: há que reduzir a oferta para aumentar os preços. (...) O poder político tem de deixar de ser simpático e tem de enfrentar os líderes do sector. Explicar-lhes que a ilusão acabou. Como? Muito fácil: aumentando os impostos do sector, impondo normas duras e exigentes e realizando inspecções rigorosas. O que implica encerrar, no mínimo, metade dos estabelecimentos existentes. Além do motivo da oferta e procura, já enunciado, devemos fazê-lo por uma simples razão de higiene: a maioria dos hotéis e bares catalães não valem nada. Não são apresentáveis. Já sei que apresentarão o velho argumento: "O turismo cria riqueza!". Não sem razão. O macroprostíbulo de La Jonquera também cria riqueza. Alguém pode negá-lo? O cultivo de coca gera muitos empregos na América Latina. Alguém pode negá-lo?

16/08/2011

Empata folladas - II

Mais 1500 empata folladas manifestaram-se nas ruas de Lloret de Mar Bar, reclamando uma mudança no modelo de exploração turística da cidade. Quando a manifestação passava pela principal avenida do turismo de borracheira, alguns turistas, certamente pensando tratar-se de obra da DHARMA Initiative, perguntavam se era uma festa. No «mejor lugar para la fiesta de toda Europa», até as manifestações anti-festa são animação turística :)
Foto de Narcís Presas

13/08/2011

Empata folladas

"Lloret es el mejor lugar para la fiesta de toda Europa. La gente es guapa, es un buen lugar para follar... Lo único malo son los mossos [d'esquadra]"
Os polícias são uns empata folladas para o «sonriente y ebrio Bruno, un alemán» que vive a melhor noite dos seus 17 anos num dos mais famosos destinos europeus de turismo de borracheira, que oferece 80 camas de hotel por cada 100 habitantes, 80% dos quais vivem do turismo.
Os polícias, o pessoal de socorro e os técnicos de saúde são alguns dos restantes 20% que, não vivendo do turismo, ocupam grande parte do seu tempo prestando serviços a turistas. Questiona-se se as reduzidas margens de comercialização de camas e de álcool de baixa qualidade cobrirão os custos crescentes daqueles serviços. Há quem diga que se deve acabar a imagem de Lloret «como un lugar idílico para el turismo de borrachera», o que certamente obrigaria Bruno a procurar outros lugares para follar...

06/08/2011

Heterogeneidade medieval

As feiras medievais com taberneiros, cavaleiros e malabaristas de fogo estão na moda e multiplicaram-se nos últimos anos um pouco por todo o país. Só entre Junho e Setembro deste ano realizam-se pelo menos 50 em Portugal.
A Lusa procurou saber a que se deve a proliferação destes eventos e lembrou-se de consultar um "especialista". Um psicólogo, pensei. Não! Um professor de História Medieval que garante que «O sucesso das feiras e torneios medievais explica-se por algum desencanto com o presente muito homogeneizado e, portanto igual por toda a parte». O que vale aos desencatados com o presente é que estas recriações medievais são diferentes por toda a parte e muito heterogéneas. Tanto que até as há que se realizam em Outubro e nem precisam de matar mouros - basta-lhes um herói treinado no corte de pepinos e capaz de subjugar o adversário asnelense.

04/08/2011

Tristes Trópicos

Joana Roque de Pinho: A corrupção. A corrupção que é uma característica muito queniana, a todos os níveis, económicos e políticos [...] e aí houve episódios que me revoltaram.

Carlos Vaz Marques: Mais do que a excisão? Mais do que o chicotear de mulheres?

Joana Roque de Pinho: Sim. Sim porque, lá está o meu idealismo, eu vejo um bocado essa corrupção e o desvio de dinheiros [...], vejo um bocado como uma consequência da introdução da economia de mercado e portanto esses Maasai já não são tão puros.

03/08/2011

A bolha do futebol

Depois dos Estados, as SAD's ibéricas são o melhor exemplo de como se pode viver em permanente estado de défice orçamental. Tal como os centros escolares, os comboios de alta velocidade e os aeroportos são vitais para tirarem os países da crise, o "investimento" em grandes futebolistas é "absolutamente necessário" para "devolver a alegria à massa associativa". A banca e os fundos de investimento lá estão, sempre prontos a financiar estes negócios com base em "garantias" de especulação sobre o valor futuro dos futebolistas.
Se o BCE não teve pejo de aceitar garantias do valor comercial de jogadores do Real Madrid, em conjunto com moinhos de vento, a CMVM portuguesa quer saber como é possível um fundo de investimento, "situado a um nível mais elevado da cadeia de domínio" de uma das 13 SAD's espanholas falidas, pagar avultada quantia por um avicultor que precisa de um assistente para agarrar galinhas.

02/08/2011

Ronaldo bankia

Afinal aquela notícia de April's Fools não será assim tão fool... segundo El País, o BCE aceita como garantia, para ceder liquidez ao Bankia, o empréstimo que o Real Madrid contraiu para comprar o (passe de) Cristiano Ronaldo. Uma Caja do grupo Bankia, com problemas de liquidez, emprestou, com um spread sobre a Euribor bastante reduzido, muito dinheiro a um clube de futebol com um rácio de endividamento de 75%. Como é evidente, não consegue financiar-se a esse spread e o BCE dá-lhe a mão, basicamente, a troco dos pés de Ronaldo.
O empréstimo dos pés de Ronaldo não é a única garantia Bankia. O grosso da garantia são empréstimos ao quixotesco negócio dos moinhos de vento, o qual, como toda a gente sabe, nunca é bom quando vindo de Espanha. Quem sabe, sabe, e quem garante o vento é que sabe.
Foto de Associated Press mostrando Ronaldo a repor os líquidos no banco. Ao lado esquerdo
está a solução para os problemas de liquidez do futebol, da banca e da economia espanhola.

30/07/2011

(Um)a definição de socialismo

Villaverde Cabral é um investigador com algum prestígio no meio académico. «Lev[ou] 70 anos a descobrir» que «o socialismo é um clientelismo de Estado».

Agora imaginem como se sente o meu ego ao ler esta entrevista - é que eu fiz essa "descoberta" antes de ter direito de voto e mesmo antes de ter lido pela primeira vez um texto de Villaverde Cabral! E, já agora, caso Villaverde Cabral ainda não se tenha dado conta, também há muito descobri que todos os partidos que nos têm governado são socialistas.

25/07/2011

É da Caneco

Naquela noite de Julho, véspera de fim-de-semana, António não queria voltar ao álcool. Apenas queria voltar a sentir-se um homem, pôr o coração a correr a 300 km/hora, se se estatelasse pouco importava, punha-se Betadine e um penso rápido e a dor passava. Antes dor que dormência. Ele queria era sentir o coração a bater.

17/07/2011

Problemas de caixa

Quem diz que as crises são uma oportunidade de mudança não conhece Portugal: por cá, mudar nunca é oportuno. Três semanas bastaram para descansar as clientelas e grupos de pressão que habitual e valentemente impedem o Estado de inverter a ordem natural do Universo e presidir ao seu próprio encolhimento. Três semanas bastaram para inquietar os contribuintes que pagam a valentia, sobretudo os 15% destes que, anunciou orgulhosa a maioria no poder, pagarão sozinhos como de costume a sobretaxa de IRS extraordinária.

16/07/2011

Nem todos os caloteiros são iguais



Pode saltar para 1:50:
Contrary to what some folks say, we’re not Greece, we’re not Portugal. It turns out that our problem is we cut taxes without paying for them over the last decade. We ended up instituting new programs, like a prescription drug program for seniors that was not paid for. We fought two wars, we didn’t pay for them.
E qual é a diferença?

15/07/2011

Álvaro de Campos não é fixolas

Arre!
Arre!
Oiçam bem:
ARRRRRE!
«O poema não era muito perceptível», alega a presidente da Associação de Professores de Português para justificar a média negativa do exame nacional. Claro está que o «factor aluno» também ajudou, já que «eles têm mais preocupações em obter boa bota [sic] a Matemática, Física e Biologia" do que em Português, porque são aquelas disciplinas específicas do seu curso que vão contar para a média de entrada na universidade». Deve ser por isso que a média de Matemática baixou para 9,2 e a «de Físico-Química quase atingiu a positiva, ficando nos 9,9 pontos».

A Professora Edviges só não conseguiu explicar por que Andrea Duarte não sabe escrever o plural de item. Eu imagino que seja por ter o corrector ortográfico em inglês. E penso que o "factor poeta" está explicado aqui.

04/07/2011

Deixemos os pentelhos e vamos ao que realmente (não) interessa

Deixemos as questões estatísticas para mais tarde. Para já, vou explicar o que representa esta figura. O eixo horizontal expressa o rácio entre os tamanhos dos dedos indicador e anelar da mão direita de uma grosa de coreanos submetidos a cirurgias urológicas. O eixo vertical expressa o tamanho do pénis esticado, medido quando os mesmos coreanos se encontravam anestesiados.
Agora olhem bem para a figura e digam-me onde raio a TVI foi buscar este título:
«Dedos iguais são sinal de pénis grande»
e o CM esta "explicação":
«o tamanho do órgão sexual masculino pode ser comprovado pelos dedos anelar e indicador: quanto mais parecida for a altura entre estes dois dedos, maior será o pénis do homem».

Obviamente, a figura não "diz" nada disso, "diz" que quanto maior for o anelar, comparativamente ao indicador (esquerda do gráfico), maior "é" o pénis esticado (e não erecto, como escreve o Correio da Manhã).

Vejamos agora as questões estatísticas. A olhómetro é possível verificar que, tirando os outliers do canto superior esquerdo, a relação entre as duas variáveis é bastante fraca. Os autores apresentam uma correlação de -0,216, o que significa que apenas 5% da variação do tamanho dos pénis é "explicada" pelo rácio entre os referidos dedos. Pentelhos, portanto.

30/06/2011

Louvor aos assessores de Sócrates nas Alturas

Se o desempenho de três doutores, um mestre, quatro licenciados e um sem título no Gabinete do Primeiro Ministro é assim tão louvável, como explicar o desempenho nada louvável do assessorado???

Empusa pennata, originally uploaded by Beijokense.

Ministro novo, sistema operativo novo

"Um dia apareceu um técnico, perguntou-me se tinha guardado a informação de que precisava e fez uma limpeza total ao disco rígido, até instalou novamente o sistema operativo", explicou [um funcionário de um gabinete do Ministério das Finanças].

Estou mesmo convencido de que, com esta operação de limpeza, o saldo orçamental começa a zero. Genial.

28/06/2011

A paixão pelo computador

O novo relatório PISA hoje revelado (ver o press release divulgado pela Lusa no Público ou no i) sugere-me a apresentação desta interessante relação inversa entre a atitude dos alunos face ao computador e o seu desempenho nos testes de leitura (aqueles em que Portugal mais se aproxima da média da OCDE):

Portugal é o campeão da paixão pelo computador, seguido pela Grécia e Chile. Nos antípodas - literalmente - os alunos da Austrália e Nova Zelândia dão menos importância ao PC e lêem melhor. Filandeses e coreanos, os melhores do teste, também são menos fascinados pelo computador.
Note-se que esta relação aparentemente tão forte pode esconder outros efeitos. Numa análise dentro de cada país, há resultados contraditórios sobre o efeito de uma variável na outra. No entanto, a intervenção da variável género tem o mesmo efeito em todo o lado - os rapazes gostam mais de computadores e lêem pior do que as raparigas.

26/06/2011

As garantias de um Governador Civil

O Governador Civil de Vila Real apresentou a sua demissão depois de se saber da intenção do Governo extinguir o cargo. Depois de
Alexandre Chaves perdeu uma óptima oportunidade para se demitir hoje, dia em que o Público revelou que, siga-se o estudo que o Governo que o nomeou entregou à troika, siga-se o plano da REFER, a linha do Corgo só espera alguém que desligue o ventilador.

24/06/2011

Eu avisei...

No dia 31-5-2011 previ aqui que «"sondagens" com resultados mirabolantes» sobre as férias dos portugueses iriam ser publicadas pelos OCS... na semana seguinte lá saía o estudozinho dizendo que «só 4,9% dos inquiridos disse que não vai fazer férias fora de casa» e que «mais de um terço dos portugueses entrevistados farão férias fora do país pelo menos uma vez por ano e 13% com mais frequência ainda».

Para ficar com uma ideia de como se chega a esta enorme falsidade, leia um post meu do ano passado.

Passadas duas semanas, os mesmos OCS que não se coibiram de dizer que 95% dos "portugueses" fazem viagens de férias, publicam os resultados de um estudo do IPDT dizendo que «pelo segundo ano consecutivo, mais de metade dos portugueses não vai gozar férias no Verão». No CM ficamos a saber que, afinal, «mais de metade» equivale a «praticamente dois terços» e ficamos a saber algo importante: «dos portugueses que admitem tirar férias no período de Verão, 25,4% vão gozá-las na zona de residência».
Contas feitas, apenas (1-0,638)*(1-0,254) = 27% fazem férias fora da zona de residência. E apenas 24%*27% = 6% viajam para o estrangeiro.

Voltando ao início, estes 6% estimados pelo IDTP são os mesmos "mais de um terço" da Marktest.

21/06/2011

Mudança

Acabei de retirar da barra lateral do blogue esta imagem:

Rodrigues et al. (2005, 2006, 2007)

Uma profícua co-autoria de "ilustres" académicos, resultante das redes universitárias tão necessárias ao desenvolvimento da ciência:
[O despacho de acusação] enfatiza o facto de os quatro arguidos serem velhos conhecidos, tendo como ponto de contacto a passagem pelos gabinetes do Ministério do Trabalho durante o Governo de António Guterres ou pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE).
[João] Pedroso, por seu lado, nomeou Rodrigues em Fevereiro de 2001 para assessora do Conselho Directivo do Instituto de Solidariedade e Segurança Social por si liderado. Um mês depois, [Rodrigues] foi trabalhar para o gabinete de Paulo Pedroso quando este tomou posse como ministro do Trabalho.
Maria Lurdes Rodrigues e João Baptista, por seu lado, são amigos e professores universitários no ISCTE – faculdade onde João Pedroso leccionou um ano nos 90 e onde o seu irmão Paulo é docente há longos anos.
O MP conclui que os co-autores recorreram a um «meio ilícito de beneficiar patrimonialmente o arguido João Pedroso com prejuízo para o erário público» e «“estavam cientes”» desse facto. Aguarda-se que Ana Gomes venha confirmar que se trata de uma «“campanha de desinformação” e de calúnia de dirigentes socialistas».

30/05/2011

Para memória futura

Aos senhores jornalistas:

P.f. leiam esta notícia do Público que diz que «89,5 por cento da procura recaiu sobre destinos nacionais» antes de (re)começar a divulgar "sondagens" com resultados mirabolantes, com afirmações do género «ficar em casa durante as férias é a última opção dos portugueses» ou «mais de um terço dos portugueses continuam a fazer férias fora de Portugal».
É certo que a notícia fala apenas de viagens, dormidas e perfil dos turistas, não apresenta estimativa do número de turistas, mas pode servir como um referencial.

29/05/2011

Um broche* muito virginal

Foi preciso um broche* do Correio da Manhã para eu ficar a saber que «o [meu] pénis é suave como a pele dos golfinhos». Palavra de extra-virgem, agora em versão copa C.

(*) expressão usada no meio jornalístico para designar um trabalho supostamente jornalístico que visa promover uma pessoa ou uma marca, presumivelmente a troco de receita para o órgão de comunicação que o veicula

Link 1: Vídeo com cenas eventualmente chocantes
Link 2: Post do Olho de Gato através do qual conheci a ex-virgem

28/05/2011

22/05/2011

Esta sondagem devia ter mais destaque noticioso

Diz Pedro Magalhães. E eu concordo em abslouto. Além de "cruzamentos disto com identificação partidária, posição ideológica, intenção de votar e intenção de voto", gostaria também de saber qual a parte do universo de eleitores que viu o debate.

16/05/2011

As minhas escolhas

Só tomei contacto com a escrita de Rentes de Carvalho após ele me ter sido apresentado pelo "Artur júnior", numa das minhas excursões à posta e ao tinto do Douro Superior -- isto faz-me lembrar Barthes, mas adiante! O que vos quero mostrar são dois excertos da escrita de Rentes disponíveis na net. O primeiro é de 1997 e integra uma obra colectiva oferecida a Delors:
As especiarias e o ouro eram nesse tempo, como os subsídios o são agora, a principal fonte de receita do país. Fontes aleatórias, por não dependerem de um esforço de produção ou de um planeamento, mas de situações circunstanciais e, em ambos os casos, sujeitas a influências e interesses que de longe excediam, e excedem, os de Portugal como nação.
(...) Não duvido de que a torneira dos subsídios continu­ará aberta, pelo menos durante algum tempo, e que daí ocorrerão benefícios. Todavia, se considero a evolução de Portugal durante a última década, logo a pergunta se põe: benefícios para quem? E a resposta é a mesma que se dava no século dezasseis: benefícios para os detentores do poder. Nesse tempo a casa real e a nobreza­, hoje os políticos, os burocratas e a burguesia.
O segundo é fresquinho, publicado ontem no seu blogue:
Apresenta-se ao lacaio uma evidência em contrário dos actos e factos do adorado? Cem evidências? Mil? Reage ele com um desdenhoso piparote dos dedos manicurados, e um ainda mais desdenhoso arreganhar dos beiços. Porque só verme recusa compreender as beneméritas intenções do Máximo, é preciso ser-se escória para desdenhar da grandeza dos seus planos, da argúcia que usa ao leme da caravela que, fôssemos melhores e mais agradecidos, há muito nos teria levado a bom porto.

05/05/2011

O Mundo é ingrato

O programa PORTUGAL2020 (aprovado em Conselho de Ministros de 20 de Março de 2011) mostra ao mundo como se pode diminuir o défice externo e combater o aquecimento global:
«A elevada dependência energética constitui uma importante debilidade da economia portuguesa (...) Para obviar a essa dependência o Governo adoptou em 2005 a Estratégia Nacional de Energia, com metas ambiciosas em termos de utilização de energias renováveis, visando um aumento do aproveitamento dos recursos endógenos e a redução das importações de combustíveis fósseis. (...) Portugal figura já entre os Países do mundo com melhores resultados absolutos e progressos relativos na concretização duma política de promoção das energias renováveis. As metas portuguesas de produzir em 2020, 60% de toda a electricidade e 31% da energia primária a partir de recursos endógenos e renováveis são das mais ambiciosas no plano europeu e mundial. Portugal está a fazer uma aposta clara nas novas energias e em particular nas energias renováveis e na eficiência energética, com resultados que posicionam hoje o País como uma referência global no sector.» (sublinhados meus)

Ora, é sabido que os "resultados absolutos e progressos relativos" se baseiam em mecanismos de tarifas garantidas a longo prazo, que mais do que compensam as "luvas" que os produtores pagam à cabeça.
Quando o Mundo (=FMI) veio até nós, não teve a gratidão de nos reconhecer a "referência global no sector". Pior, atreveu-se a por em causa a estratégia do PORTUGAL2020:

Medida 5.6 --> renegociação e revisão em baixa dos mecanismos de compensação aos produtores convencionais pelo incremento da produção "alternativa"
Medida 5.7 --> revisão em baixa dos incentivos à co-geração
Medida 5.9 --> renegociação dos contratos com os produtores de renováveis com vista a diminuir o incentivo tarifário
Medida 5.10 --> assegurar que não há benefício mais do que justificado para os produtores de renováveis, nos novos contratos; nos novos contratos da hídrica e eólica, não adoptar tarifas garantidas
Medida 5.11 --> análise rigorosa e independente dos custos e do impacto nos preços em todas as decisões de investimento em energias renováveis

Família

Sócrates has two sons, José Miguel and Eduardo.


Source: Information provided by the office of Prime Minister José Sócrates.

02/05/2011

Perguntar não ofende

Não tenho por hábito publicar extensivamente conteúdos protegidos por direitos de autor, mas sou levado a abrir uma excepção, dado que considero que esta publicação é serviço público.

1. A falta de jeito de Pedro Passos Coelho advém da inexperiência, da falta de convicção, ou de um bloqueio ditado por não querer desagradar a ninguém?

2. Quando Sócrates fala de Estado Social, só a mim me ocorre que Rui Pedro Soares, cujo principal currículo era ser amigo do primeiro-ministro, ganhou cinco milhões de euros desde 2005?

3. Na história recente houve sempre um grande homem nos momentos difíceis. Salgueiro Maia no 25 de Abril, Melo Antunes no 25 de Novembro, Mário Soares no PREC e na Europa. Será que desta vez não aparece nenhum?

4. Qual o motivo de Soares, aos 86 anos, ser praticamente o único histórico socialista (há também Sampaio e Gama) que coloca reservas ao estilo Sócrates? Vitorino, Costa, Ferro e outros, dirão, como Roosevelt "é um sacana, mas é o nosso sacana"? E nesse caso põem os seus interessezinhos à frente dos do país?

5. É racional acreditar em Sócrates, quando diz que o chumbo do PEC IV, em Março, é que fez faltar o dinheiro já em Maio?

6. O primeiro-ministro desmente ter-se zangado com com o ministro das finanças. Mas porque razão este guarda silêncio sobre o assunto?

7. Quando sabemos que o FMI é mais brando do que a UE, não podemos concluir que fomos enganados pela retórica de Sócrates? Que o país perdeu muito dinheiro ao não pedir o resgate mais cedo? Que se o pedisse só à UE, sem o FMI, isso apenas beneficiava o ego do primeiro-ministro?

8. Se Manuela Ferreira Leite tinha razão em 2009, quando traçou um panorama negro do país, enquanto Sócrates aumentava a função pública e prometia cheques-bébé, a conclusão é que o primeiro-ministro sabia menos que Manuela Ferreira Leite? Ou que enganou deliberadamente o eleitorado, para vencer as eleições? E quem nos engana, uma vez, duas, três vezes, não nos estará a enganar agora?

9. Quantos, dos que agora se queixam dos especuladores, se indignaram quando o nosso especulador doméstico Joe Berardo recebeu empréstimos de um banco público para tomar partido numa contenda privada entre a SONAE e a PT?

10. Se Cavaco soube fazer, e bem, a cerimónia do 25 de Abril, porque não tem feito mais nada que se veja?

Henrique Monteiro, EXPRESSO, 30/04/2011

28/04/2011

Notícia

Estas declarações do Governador do Banco de Portugal são notícia apenas porque o seu antecessor não Governou banco nenhum, limitou-se a ser um pau-mandado do seu partido. A sua reiterada omissão também deveria ser responsabilizada.

25/04/2011

"Eles" não são todos iguais

Escolhi o dia 25 de Abril para publicar este discurso escrito por Artur Fontes, delegado ao Congresso do PS pela concelhia de Carregal do Sal. Escrito mas não proferido, pelas razões que o próprio aqui apresenta. Concorde-se ou não com os vários pontos enunciados neste discurso que não o foi, o que pretendo realçar com esta publicação é que, nesta «democracia capturada», "eles" não são todos iguais! Há quem acredite que é possível melhorar a "saúde" dos partidos para melhorar a "saúde" da democracia.


«A saúde de uma democracia depende não apenas da estrutura das suas instituições, mas também das qualidades dos seus cidadãos», assim se lê na Enciclopedia of Philosophy. E eu acrescento: A saúde de um partido democrático, como o partido socialista, não depende apenas das suas estruturas, mas sobretudo, da qualidade dos seus membros. Só esta qualidade poderá fornecer um bom lote de dirigentes. E é «na variedade dos meios e expressões que encontraremos a unidade diversificada de uma síntese progressiva, que é o labor continuado de todos os homens de boa vontade». (Mafalda Faria Blanc). Esta boa vontade encerra em si o saber e o saber estar ao serviço sem outros fins e objectivos que não sejam apenas o servir apaixonada e desinteressadamente a Causa Pública. Isto é, imbuídos de espírito e de uma ética republicana! Mas, para servir desta forma, necessário seria a existência de um clima de saber ouvir, e bem, para saber discernir. Foi o que faltou a este governo, cujo principal responsável foi José Sócrates. Deixou de ouvir os avisos constantes dos economistas, deixou de ouvir os avisos elegantes de Mário Soares e do próprio actual Presidente da República. Deixou de ouvir a própria Conferência Episcopal portuguesa, deixou de ouvir os avisos que a própria Drª Ferreira Leite lhe apontava acerca do défice, numa atitude de falta de humildade, deixou de ouvir os protestos dos elementos da PJ e da PSP, deixou de ouvir a sociedade civil, já para não falar das vozes discordantes e corajosas dentro do partido. Prometeu desvairadamente a criação de cento e tal mil postos de trabalho e o que temos são mais de 600.000 desempregados. Não atacou o enriquecimento ilícito. A despesa pública do sector público administrativo em 2003 era de 60 mil milhões de euros, actualmente são mais de 82 mil milhões. Começou com a reforma do ensino e não a acabou. Fez um braço de ferro com os professores para mais tarde ceder no que anteriormente não cedia. A Justiça, pilar importante de uma democracia e da sua credibilidade, padece de um mal crónico. Fez promessas que não cumpriu e, mais grave ainda, não pediu desculpas ao povo português, argumentando serem sempre os outros os culpados, numa fanfarronice sem escrúpulos. Contra este estado mental já combatiam Jaime Cortesão e António Sérgio, em 1921 e escreviam na “Seara Nova” «Em democracia quem mente ao povo é réu de alta traição»!
Os nossos secretários de estado e deputados, falavam todos à mesma voz: Propagandeavam aquilo que Sócrates dizia ser “muito importante” ou “historicamente importante”, enquanto o descalabro arruinava o País. E, o partido tornou-se, assim, num veículo de propaganda governamental, à semelhança dos partidos soviéticos, apático e sem massa crítica, devido ao afastamento voluntário de muitíssimos militantes revoltados e desiludidos por verem que o partido servia uma clientela política e se transformava num centro de emprego para os boys e à cumplicidade dos dirigentes com medo de perderem os seus lugares!
Esta actuação, ofuscou aquilo que de bom se fez, nomeadamente no campo das ciências ou da diplomacia.
Escrevia Rodrigues Migueis, na “Seara Nova”, nos anos 20: “Deve o estado rodear-se de gente honesta, perseguir os viciosos e expulsar os inúteis”.
Sendo assim, é hora de dizermos BASTA!
O partido socialista precisa de se transformar, como escreveu Sophia Mello Breyner : «Como casa limpa / Como chão varrido / Como porta aberta / (…) Como página em branco / Onde o poema emerge / Como arquitectura / Do homem que ergue / sua habitação.» (in “Revolução”).
Só assim cumpriremos Portugal, no sentido dado por Miguel Torga: “O meu partido é o mapa de Portugal”!
Artur Fontes, Carregal do Sal