27/12/2010

Melrocracia

No blogue de um deputado pelo círculo de Viseu pode ler-se:
«A Instituição Particular de Solidariedade Social “Os melros” de Germil, Penalva do Castelo, presidida por José Manuel Lopes, efectuou no dia 19 de Dezembro o seu tradicional almoço de Natal para todos os seus utentes: os idosos do Lar.
Como convidado principal, marcou presença o Secretário de Estado da Administração Local, José Junqueiro e muitos outros amigos e representantes institucionais de que se destacam, o Presidente da Câmara Municipal de Mangualde, João Azevedo, o deputado Acácio Pinto, o Governador Civil, Miguel Ginestal, os directores da Segurança Social de Viseu, Manuel João Leitão e João Cruz, o vereador da Câmara de Penalva e Vice-Provedor da Misericórdia, Francisco Lopes, o adjunto do Presidente da Câmara em sua representação, representantes da Agrupamento de Escolas do Concelho, entre muitos outros.»


Tradução da notícia:
José Manuel Lopes, presidente da Junta de Germil e membro da Comissão Política Concelhia do PS de Penalva, convidou um conjunto de amigos do PS para um comício na IPSS que dirige - "Os Melros". O keynote speaker foi o eterno cabeça de lista do PS pelo círculo de Viseu, que compareceu no papel de Secretário de Estado dos Lobbies Locais. Destaca-se também a presença do Presidente da Federação de Viseu do PS, João Azevedo, bem como as de Acácio Pinto e Miguel Ginestal, que trocaram entre si os cargos de Governador Civil e deputado pelo distrito. Os dirigentes distritais do PS, Manuel João Leitão e João Cruz, não poderiam deixar de estar presentes, atendendo às suas funções na Segurança Social de Viseu.

Leitura complementar:
A democracia capturada

12/12/2010

Procurar nos arquivos é uma Maçada

"Há duas coisas que não podemos escolher: os nossos pais e a terra onde nascemos. Temos a obrigação de respeitar essa herança, amá-la e transmiti-la".
Dias Loureiro na apresentação de uma biografia do Menino de Oiro, o Primeiro Ministro de Portugal, José Sócrates.


Pedro Quartin Graça recuperou aqui uma entrevista de Sócrates feita pelo DN em 2000. A graça do post é que, no último parágrafo, o actual Primeiro Ministro de Portugal diz «não tenho o talento e as qualidades que um Primeiro Ministro deve ter» - estaria a ser sincero???

No entanto, o que interessa para este meu post é o parágrafo anterior. Sócrates referia-se à aldeia duriense Vilar de Maçada, quando o jornalista lhe perguntou:
- Foi lá que nasceu?
- Não, eu nasci na Covilhã...

Ora, como já referi num post de 2009, o jornalista Filipe Santos Costa escreveu que «de facto, o líder socialista nasceu no Porto, a 6 de Setembro de 1957, mas o pai fez questão de o registar» como natural de Vilar de Maçada. Afinal, parece que há quem possa escolher a terra onde nasceu.

11/12/2010

PISA mining

José Manuel Fernandes compara (aqui) as médias dos testes PISA 2009 entre o ensino público e o ensino privado, atribuindo às escolas privadas um desempenho indubitavelmente superior. A realidade é um bocadinho mais complexa. O que o gráfico abaixo demonstra é que há dois grupos de escolas privadas: 1) as "independentes", i.e. cuja dependência de financiamento público é inferior a 50%, com resultados significativamente melhores; 2) as "dependentes", i.e. com financiamento maioritariamente público, cujos resultados não são significativamente diferentes dos das escolas públicas.

Por outro lado, como JMF reconhece, algumas escolas privadas atraem alunos de estatuto social e económico superior, com as condições para obterem melhores resultados, logo, para uma comparação mais justa, seria necessário controlar o efeito daquela variável. O relatório da OCDE fá-lo (Volume IV), relativamente aos testes de leitura, mas agrupando todas as escolas privadas. Assim, no caso português, as escolas privadas têm mais 28 pontos de média. A diferença baixa para 16 pontos quando se controla o estatuto social, cultural e económico do aluno. No entanto, quando se acrescenta também o efeito do estatuto social, cultural e económico da escola, a diferença reduz-se a 4 pontos e deixa de ser estatisticamente significativa.

Ao nível da OCDE, os resultados indicam que o que pode fazer melhorar o desempenho não é a forma jurídica de escola, pública ou privada, mas, como nota também JMF, os níveis de autonomia e responsabilidade, além de outros factores como o ambiente escolar, também mais favorável nas escolas privadas.

10/12/2010

PISA e políticas educativas

Mais do que especular sobre se a melhoria nos resultados dos testes PISA se deve às "reformas" de Maria de Lurdes Rodrigues, importa saber o que dizem os técnicos da OCDE sobre as políticas seguidas pelos países com melhores resultados naqueles testes.

Vejamos então as principais policy implications divulgadas no relatório
OECD (2010), PISA 2009 Results: What Makes a School Successful? – Resources, Policies and Practices (Volume IV) http://dx.doi.org/10.1787/9789264091559-en

  1. Menor diferenciação
    Separar alunos pelas suas capacidades ou vocações tende a produzir resultados mais fracos. Holanda e Suiça, onde há ambientes selectivos e bons resultados, são as excepções à regra.
  2. Autonomia e responsabilidade
    A autonomia da escola na definição da oferta educativa e dos conteúdos curriculares está associada a melhores resultados globais do sistema. [Portugal partilha com Grécia, Turquia e México o estatuto de países da OCDE onde há menor autonomia naqueles campos.]
  3. Padrões
    Estabelecer padrões de desempenho transparentes, com identificação precisa de metas de aprendizagem e resultados avaliados por exames externos.
  4. Ambiente escolar
    Disciplina, relações entre professores e alunos e atitudes da família face à escola são muito importantes para obter resultados positivos, sobretudo nas escolas que se localizam em áreas desfavorecidas.
  5. Recursos humanos
    A qualidade dos RH (professores e directores) é mais importante do que os recursos materiais e financeiros. Atingido um nível básico, os equipamentos e materiais não têm qualquer impacto significativo nos resultados. É preferível pagar maiores salários aos professores, mesmo que para isso se aumente o tamanho das turmas.
Bottom line:
«Recent research has emphasised the importance of teaching quality for learning outcomes. If there are ways in which higher investments can be used to recruit more qualified teachers or provide professional training that increases their effectiveness, this could be money well spent. The bottom line is that the quality of a school system cannot exceed the quality of its teachers

Agora sim, podem começar a discutir se tem sido esta a orientação da política dos últimos anos...

09/12/2010

O mexilhão

Através do EcoTretas, cheguei a um artigo do Público onde se explica como o Estado se financia cobrando aos operadores de produção eléctrica uns milhões à cabeça, pagos depois às prestações pelos consumidores de electricidade:
«O Estado encontrou uma nova fonte de receita na concessão das novas grandes barragens. As licenças para Iberdrola, Endesa e EDP totalizaram 624 milhões de euros de encaixe financeiro e foram utilizados para despesa pública geral. Com os concursos para as centrais mini-hídricas e solares fotovoltaicas, que têm de estar fechados até final do ano, o Estado assumiu que procurava a "mais alta contrapartida financeira", como explicita no anúncio do concurso, e espera arrecadar mais 110 milhões de euros ou um pouco mais, sendo verbas que vão servir, de novo, para fins fora do sistema eléctrico

«O Estado está a usar os promotores de energias renováveis como financiadores e fixa-lhes tarifas garantidas ao longo de anos para se ressarcirem do dinheiro (...)

Para além de dar valores mais atractivos para a tarifa garantida, como compensação futura, o Governo, em alguns casos, tem alargado o prazo dessa garantia bem como o das concessões.»

Uma pequena fatia destes milhões usados "fora do sistema eléctrico" serve para calar os autarcas dos locais de concessão - prejudica-se a lontra, lixa-se o mexilhão (de água doce, neste caso), mas haverá mais uma estrada alcatroada, um polidesportivo ou um museu etnográfico para inaugurar, algo precioso neste tempo de vacas magras.

08/12/2010

Wong, Barbara

A capa do Público de hoje é enganadora.

Alega a jornalista Bárbara Wong que «Portugal entrou na média da OCDE a Português, Ciências e Matemática», o que é falso!
No teste de leitura os estudantes portugueses têm um resultado médio (489) que não se distingue da média global (493). Pelo contrário, no teste de matemática a pontuação dos portugueses (487) é significativamente inferior à média (496). Também em ciências a média dos portugueses (493) é significativamente inferior à média da OCDE (501).
O relatório da OCDE até apresenta cores diferentes, consoante a média dos países se distingue ou não da média geral, pelo que não se compreende o erro da jornalista!!!

Quanto à manchete, também é muito forçada...
Na leitura, os alunos portugueses "progrediram" 19 pontos desde 2000, um resultado bastante positivo mas abaixo dos "progressos" da Polónia (21), Israel (22) e Chile (40). Na Turquia não há dados para 2000, mas este país subiu 31 pontos de 2003 a 2009. No entanto, se em Portugal compararmos o teste de leitura de 2009 (489) com o de 2003 (478), nem sequer se pode dizer que a média seja significativamente superior (do ponto de vista estatístico - Cf. tabela V.2.9 do relatório Changes in Student Performance since 2000 - Volume V).
No teste de matemática, Portugal melhorou 21 pontos, ao mesmo nível de Grécia e Turquia e significativamente abaixo do México (33), país que continua sendo o mais fraco.
Em ciências só há dados de evolução de 2006 para 2009 (note-se que, em Portugal, os resultados globais de 2006 tinham sido inferiores aos de 2003). Neste caso, apenas a Turquia (30 pontos) subiu mais do que Portugal (19).
Globalmente, o país da OCDE cuja pontuação média mais progrediu foi a Turquia e não Portugal como se escreveu na manchete.

PISA, PIIGS & especuladores

O gráfico abaixo apresenta a média das pontuações dos países da zona euro na edição de 2009 do teste de matemática PISA. É evidente que "a ditadura dos mercados financeiros" atinge particularmente quem se dá mal com números!

07/12/2010

El mano

Não compreendo que alguém possa dizer que El Mano beneficiou o FCP. É certo que o homem inventou um penalty a seu favor na 1.ª parte, mas, vendo-os jogar tão mal, pôs a mão na consciência e, mesmo a terminar o jogo, marcou penalty contra por duas vezes!

01/12/2010

As minhas escolhas

Fluir

Relógio d'Agua, 2002, 18€

Por diversas vezes me cruzei com a versão em língua inglesa, mas só há poucas semanas comprei a (boa) tradução da Relógio d'Água.
Das muitas leituras que é possível fazer do que Csikszentmihalyi escreveu, realço aqui uma complementaridade ao livro de Schwartz que aconselhei há uns tempos - a felicidade não está na lotaria, nem, muito menos, no controlo remoto; pode estar em actividades "normais", desde que nos proporcionem a dose certa de desafio. «As pessoas que aprendem a desfrutar do seu trabalho, que não desperdiçam o tempo livre, acabam por sentir que, globalmente, a sua vida vale muito mais a pena».