O INE estima que, em 2009, 2,6 milhões (29%) de portugueses maiores de 15 anos (9 milhões) dormiram pelo menos uma noite fora da residência habitual, por motivo de lazer, recreio ou férias. Dos 2,6 milhões de turistas, 230 mil (9%) viajaram para o estrangeiro. Ou seja, o
maior e mais fiável estudo sobre as viagens dos portugueses, feito segundo as normas europeias sobre a matéria, estima que 2,5% dos portugueses maiores de 15 anos fizeram uma viagem de lazer ao estrangeiro que tenha implicado, pelo menos, uma dormida fora da residência habitual.
Estes números são
fresquinhos e vêm a propósito de um artigo de Ana Sofia Fonseca no Diário Ecómico de ontem, intitulado "Meu querido mês de Agosto", o qual recupera
o malfadado "estudo elaborado pela Marktest para o portal de reservas Hotels.com", para assegurar que «34% dos inquiridos mantém a ideia de ir para fora». No parágrafo anterior, a jornalista menciona o estudo da GFK para o WSJ, segundo o qual 2 em cada 3 portugueses não sairiam de casa, resultado que deixa o director de marketing da Soltrópico «de sobrolho franzido».
Na realidade, a
sondagem da GFK não perguntava se as pessoas iam viajar, mas quanto iriam gastar em viagens de lazer. Os 66% correspondem à percentagem de portugueses que escolheram a opção de resposta: «Nenhum, vou ficar em casa, não viajo». Apesar da pergunta não ser a mais indicada, os resultados assemelham-se aos do inquérito do INE às viagens dos residentes em Portugal e a outros estudos que têm sido feitos sobre o assunto - apenas 1/3 dos portugueses faz viagens de lazer. Não há dados seguros sobre quantos fazem viagens "de férias" (mínimo de quatro noites), mas não serão mais de 1/5.
Férias no estrangeiro são privilégio de cerca de 3% dos portugueses. O facto de eu, a Ana Sofia Fonseca, os seus entrevistados e os clientes da Soltrópico fazermos parte desse grupo restrito, não nos deve afastar da noção da realidade vivida pela população portuguesa.
Então, porque é que a sondagem da GFK dá resultados próximos dos obtidos pelo INE e pelos estudos científicos na área, enquanto o "estudo elaborado pela Marktest para o portal de reservas Hotels.com" dá resultados de uma realidade virtual? A resposta é bastante simples: o estudo da Marktest é feito numa realidade virtual!
Enquanto a amostra da GFK é retirada da população portuguesa, a amostra da Marktest é um painel de voluntários que preenchem um questionário online, a troco de um voucher. Não é difícil perceber que
esse painel não é representativo da população portuguesa.
Leitura complementar:
Atitude patriótica.