06/09/2009

Onde está o Norte?

Bússola Eleitoral

Os modelos de comportamento eleitoral que estão "nos bastidores" da produção dos gráficos acima pressupõem que os eleitores formam preferências a partir de "atributos" dos partidos, neste caso, posições sobre aquilo que os autores consideram "domínios políticos".

O posicionamento (gráfico de cima) é calculado a partir de uma versão simples do chamado "modelo do ponto ideal". O eleitor tenderia a identificar-se com o partido mais próximo num determinado número de dimensões (aqui, 2). A ideia é interessante e permite até que, na elaboração do gráfico, o potencial votante decida que "domínios" incluir, mas não admite uma alternativa básica que é considerar uma das dimensões muito mais importante do que a outra - p. ex., a distinção entre esquerda e direita pode ser muito mais importante para influenciar a decisão de voto do que a distinção entre libertário e tradicionalista. Por outro lado, o cálculo da proximidade entre eleitor e partidos pressupõe ortogonalidade das dimensões, o que não se verifica no espaço dos partidos - nitidamente, os partidos nacionalistas e tradicionalistas são de direita. No espaço partidário, é possível criar uma "faceta" que resume a "informação" daquelas duas dimensões:

Quanto ao "score de concordância", é um caso típico de modelo compositivo, i.e. funciona como se a atitude face a um partido dependesse das posições mútuas de partido e eleitor em todas as 28 questões (ou aquelas a que tenha respondido - eu não respondi a todas, porque achei que algumas eram complexas, i.e. misturavam conceitos ou não me pareceram adequadas para responder naquela escala de concordância). Penso que este cálculo de concordância terá pouca utilidade para explicar o voto. Pelas seguintes razões:

  1. A proximidade e/ou identificação com os partidos baseia-se, para grande parte dos eleitores, em impressões vagas e em reacções emocionais que sustentam atitudes gerais face ao partido, as quais tendem a polarizar-se (positivo-negativo; a favor-contra; etc.)
    Quando o eleitor conhece posições do partido sobre um "domínio político", tende a avaliar este domínio segundo a referida polarização. Ex: O eleitor A é favorável ao investimento imediato no TGV porque simpatiza com o PS. Precisamente o inverso da teoria subjacente, que considera que uma das razões para votar PS seria este partido defender o TGV.
  2. Mesmo os eleitores sem filiação partidária mais envolvidos nos "domínios políticos", que usam critérios "racionais" para decidir o voto, fazem-no habitualmente a partir de um único "atributo" ou de um número de atributos muito reduzido. Ex: Para o eleitor B basta saber qual a posição dos partidos (num determinado conjunto de escolha, ele também reduzido) relativamente à avaliação dos professores ou aos despedimentos na função pública.
  3. A forma como o 'mercado' eleitoral evoluiu em Portugal levou a que o peso das impressões, simpatias e antipatias relativamente aos líderes partidários seja mais importante do que a avaliação ponderada das posições partidárias nos diversos "domínios políticos". Ex: por mais próximo que o meu lápis (1.º gráfico em cima) possa estar do PS, eu nunca votarei neste partido numa eleição da AR, enquanto ele for liderado pelo . No way, José.

O meu conselho: no próximo dia 27, vote conforme lhe der na real gana e consulte a bússola depois de ter votado!

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