20/06/2012

Amostras

Não sei qual o método de amostragem, mas sei que o tamanho da amostra (56) não permite estas simplistas comparações de género sobre os motivos para o divórcio. Os OCS dão basta relevância a estudos com muitas limitações, mas os investigadores também têm culpa ao permitirem (promoverem?) relevância mediática para quantificações com margens de erro brutais.

19/06/2012

Resgate com juros se paga

O espanhol Velasco Carballo perdoa penalty e cartão vermelho ao defesa alemão Badstuber. Garantiu a permanência da Mannschaft no Euro 2012.

O alemão Stark corresponde com juros e perdoa dois penalties à Espanha. Aqui o primeiro num tackle de Ramos sobre Mandzukic.

E este em que Busquets tenta despir a camisola a Corluka, com Casillas completamente batido. E assim a Espanha continua no Euro.
Vai-se cumprindo o desejo (ou as ordens???) de Platini. Se chegarmos a uma meia-final ibérica, irá José Manuel Barroso denunciar o Eixo?

10/06/2012

Desemprego diplomado

O GPEARI divulgou estatísticas sobre o emprego dos diplomados com curso superior, referentes da Dezembro de 2011.
O gráfico abaixo apresenta a taxa de desemprego dos que concluiram um curso universitário (não inclui estabelecimentos politécnicos) entre 2008 e 2011, por área de formação:


Olhando para o gráfico, não consigo compreender como é que a jornalista do Público conseguiu destacar que «Os cursos na área de Ciências Empresariais são os que têm menos saída»???
Compreendo que o MEC queira diminuir vagas para formação de professores, mas devia ser dada maior ênfase à taxa de desemprego dos diplomados em serviços sociais. Quanto à formação em informação e jornalismo, está mais do que provado que a quantidade é muito superior à qualidade.

Portugal Vs Alemanha


Germany - 1964, originally uploaded by abudulla.saheem.
Em 2001, durante uma visita a um museu em Bona, deparei-me com uma Zündapp de matrícula portuguesa que começava por 1-NLS. Ao lado, os documentos atestavam que tinha pertencido a Armando Rodrigues de Sá, Vale de Madeiros.
Armando foi um ícone da política de imigração da RFA. As Zündapp foram ícone dos colegas de Armando que ficaram nos Fornos Eléctricos.
Salvo raras excepções, ganha sempre a Alemanha...

05/06/2012

Lixo jornalístico

Depois da tinta que o caso fez correr na semana passada (ver amostra neste blogue), o que a jornalista (?) Rosa Ramos aqui escreve é lixo tóxico, com demasiadas imprecisões para ser aceitável:
  • O caso NÃO "recua a 1986".
  • Quais foram os "novos casos de reacções adversas"? Reacções adversas a quê?
  • No 4.º parágrafo fala de 5027 "crianças envolvidas"; no 5.º reduz para 500.
  • Fala de "administração do mercúrio" sem explicar que é isso que todos recebemos se tivermos uma restauração com amálgama.

30/05/2012

(Ainda) sobre a difícil convivência entre jornalismo e ciência

Hoje (29/5) deparei-me com um conjunto de artigos de uma amiga no facebook (cf. também o blogue Divas e Contrabaixos), indignada com este alegado “facto”: «Durante oito anos, 500 crianças da Casa Pia foram submetidas, sem saberem, a experiências que “nunca tinham sido feitas sequer em animais”». Noutras notícias, lia-se que as mesmas crianças foram «cobaias de uma universidade dos EUA». Bom, se crianças à guarda duma instituição tutelada pelo Estado Português são cobaias de uma universidade americana para serem submetidas a experiências que nem nos animais foram feitas – isto é preocupante!

Tendo à minha disposição uma imensa quantidade de artigos científicos produzidos nos últimos anos, fiz uma pausa no meu trabalho para procurar publicações sobre esta experiência. Em poucos segundos encontrei algumas e pareceu-me que, para não variar, os jornalistas que suscitaram este alarme social demonstraram alguma dificuldade em compreender as publicações científicas… Deixo aqui algumas evidências[1] que me deixam mais tranquilo quanto ao eventual abuso das crianças casapianas – desta vez, científico!

1.       Foram envolvidos médicos investigadores da Universidade de Lisboa, a qual participou institucionalmente no estudo.

2.       O desenho da experiência consiste na comparação de dois grupos, sujeitos a tratamentos diferentes. No entanto, ambos os tratamentos eram usados regularmente à época (e são-no ainda hoje), pelo que nenhum desses tratamentos pode ser considerado experimental. Ou seja, as crianças foram separadas em dois grupos que receberam conjuntos de materiais diferentes para reparar dentes cariados, mas nenhum deles era desconhecido da prática dentária regular. Não houve nenhum ensaio clínico de substâncias novas de efeitos desconhecidos.

3.       A escolha da Casa Pia foi justificada por estes factores:

a.       Era conhecida a necessidade de tratamento dentário urgente numa elevada proporção de alunos da Casa Pia. A média de cáries nas crianças de 8-10 anos era cerca de sete vezes superior à média americana.

b.      Foi medido o teor de mercúrio na urina e verificou-se que os alunos apresentavam valores bastante baixos. Isto facilitaria as medidas posteriores ao tratamento, já que um dos tratamentos (“chumbo”) contém mercúrio e os efeitos da exposição ao mercúrio nesse tipo de tratamentos eram precisamente o objecto do estudo.

c.       Considerou-se que a ligação dos alunos à instituição era muito favorável para garantir a continuidade de estudos de acompanhamento longitudinais que eram necessários para avaliar os efeitos (durante sete anos).

4.       O estudo foi autorizado pelo organismo governamental americano que regula a prática dentária e pelo equivalente americano da Comissão de Protecção de Dados [não foi publicada informação sobre autorizações de organismos reguladores portugueses]. Foi obtido o consentimento dos pais e dos alunos. O director da Casa Pia deu o consentimento para os alunos internos (20% do total da amostra).

a.       Os autores identificaram esta autorização do director para os 20% de alunos internos como a principal questão ética do estudo: o director poderia ver no estudo uma forma fácil e barata de garantir tratamento dentário a esses alunos. De qualquer modo, argumentaram que o interesse dele não seria superior ao dos pais dos restantes 80%, já que o acesso a tratamento dentário era diminuto para todos. Argumentam ainda que a gratuitidade do tratamento não pode ser encarada como uma forma de “forçar” o consentimento dos pais, uma vez que, se o tratamento não fosse grátis, eles não iriam procurá-lo.

b.      Foi a equipa da Universidade de Lisboa que determinou que o consentimento do director era suficiente para a participação dos alunos internos.



[1] DeRouen et al (2002) Issues in design and analysis of a randomized clinical trial to assess the safety of dental amalgam restorations in children. Controlled Clinical Trials, 23(3), 301-320.