22/04/2010

Erros factuais de uma notícia

Às vezes, mais valia transcrever o press release do que fazer interpretações incorrectas.

Vejamos os erros desta notícia do Público com base num destaque do INE.

1. O título "Residentes são os principais clientes do turismo português" é desmentido pelo segundo parágrafo: «36,3 por cento das dormidas registadas em Portugal tiveram origem em hóspedes residentes no país». Isso equivale a dizer que 63,7% foram de residentes no estrangeiro - então, quem são os principais clientes?

2. «2008 foi o ano em que se nota que os portugueses passaram a preferir fazer férias dentro do país». Até parece que antes de 2008 "preferiam" fazer fora!!! Na verdade, os portugueses sempre "preferiram" fazer férias dentro do país. O que se passou foi que, até 2007, estava a aumentar a quota de dormidas dos portugueses no estrangeiro e em 2008 se deu um retrocesso neste índice.

3. «As regiões que registaram mais dormidas de portugueses foram o Algarve e o Norte, com 3597 e 2539, respectivamente». Obviamente, teríamos de multiplicar por mil cada um daqueles números...

4. «Os Açores e a Madeira foram as regiões com menos dormidas geradas pelo mercado interno». Foram "geradas" na Madeira mais dormidas do que no Alentejo.

5. «Os portugueses preferiram ficar maioritariamente alojados em hotéis». Isto não é propriamente um erro factual. Se considerarmos apenas o objecto do relatório citado, i.e os estabelecimentos hoteleiros, então a tipologia dominante são os hotéis. No entanto, é preciso dizer que há muito mais portugueses a fazer férias em alojamento particular do que em hotéis.

21/04/2010

Álcool: o copo meio vazio

Os resultados do inquérito do Eurobarómetro sobre as atitudes face ao consumo de álcool dão lugar de relevo a Portugal em dois indicadores:
  1. Os portugueses são os mais abstémios da UE. 42% não consumiram álcool no último ano, valor muito superior à média UE27 (24%) e muitíssimo superior aos dos povos do Norte: Dinamarca 7%; Suécia, 10%; Holanda, 12%.
  2. Dentre os consumidores, os portugueses são os que o fazem com maior regularidade. 43% dos que consumiram no último mês, fizeram-no diariamente, valor bastante superior à média UE27 (14%) e incomparavelmente superior aos nórdicos (1% na Suécia; 3% na Finlândia, p. ex.)
A Lusa preferiu destacar o ponto 2. subvertendo os resultados: «Quatro em cada dez portugueses afirmam beber álcool diariamente, o que deixa Portugal no topo dos 27 países da União Europeia».

Como consegue a Agência Lusa esta proeza? Simplesmente confundindo a população dos consumidores de álcool (58% dos portugueses adultos) com a população portuguesa.

Se quer ter a população adulta como referência, então a percentagem é
58% de portugueses consomem bebidas alcoólicas x
91% consumiram nos últimos 30 dias x
43% dos que consumiram nos últimos 30 dias, fizeram-no diariamente
 = 23%

Não deixa de ser o lugar de liderança europeia neste indicador, mas não assume as proporções que a Lusa lhe atribui.

Além disso, o relatório do Eurobarómetro mostra também que nos países nórdicos se consome maior quantidade de bebida por cada ocasião de consumo. 81% dos consumidores portugueses bebem habitualmente no máximo dois copos. Esse percentagem é superior à UE27 (69%) e bastante superior à Irlanda (34%), Reino Unido (51%), Dinamarca (51%), Suécia (56%) ou Finlândia (56%).

Nota: este post foi escrito após a ingestão de uma pequena quantidade de álcool, ao almoço.

Os press releases, os estereótipos e a realidade

Viagens e férias: a mulher escolhe, o homem paga

É este o título de uma notícia que saíu ontem (dia do turista) na versão online do Público. A leitura do artigo despertou-me imediatamente as dúvidas sobre a correcção do título. Disso falarei a seguir. Antes, deixo uma nota para dizer que na versão em papel (edição de hoje) o artigo encolheu um pouco, tendo omitido o método de amostragem e de recolha da informação utilizado no estudo que serviu de base à notícia.

1. Vamos começar exactamente por este método de selecção da amostra e de recolha de informação. O Público diz que «as questões foram colocadas por correio electrónico». Já o site RH Turismo, refere «questões colocadas online». Admito que a versão do Público seja erro de interpretação do jornalista. Isso não interessa para o caso. O que interessa assinalar é que, de acordo com a American Association for Public Opinion Research, os inquéritos feitos via internet, numa base de recrutamento voluntário, não podem ser usados para estimar valores da distribuição de uma váriável na população nacional  (Relatório em PDF). Numa linguagem simples, devemos dizer que a amostra não é retirada da população para a qual se pretende fazer estimativas.

2. O artigo refere que não se "especifica" o número de casais portugueses, na amostra total de 1437 casais de nove países europeus. Não obstante, apresenta resultados para o "caso dos portugueses". De qualquer modo, a amostra é pequena para fazer estimativas na população, mas isso é algo irrelevante, atendendo ao que referi no ponto anterior.

3. Finalmente, a suposta confirmação do estereótipo: «No caso dos portugueses, a maioria refere genericamente que as escolhas são feitas em conjunto mas quando as opções vão às questões concretas fica claro que são as mulheres a decidir e os homens a pagar a conta», escreveu José Augusto Moreira no Público. Entenderam?
Mesmo sem ter tido acesso ao estudo original, vou tentar explicar, com a ajuda do site RH Turismo. Em princípio, as opções de resposta para a pergunta "Quem escolhe o destino de férias?"seriam "em conjunto", "mulher" e "homem". Sabemos que a categoria "mulher" obteve 15% das respostas e a categoria "homem" obteve 7%. Faltam 78% de respostas, que deverão estar na categoria "em conjunto".
Este resultado não é nada surpreendente, não porque confirme o estereótipo do título, mas antes porque, apesar das deficiências apontadas em 1. e 2., é conforme ao que foi obtido num estudo realizado há 40 anos (link), segundo o qual a escolha das férias é precisamente um dos "produtos" em que existe menor dominância de um dos cônjuges na fase de decisão, i.e. a grande maioria dos casais decide o destino de férias em conjunto. É esse o "estereótipo".

20/04/2010

O Profeta Soares

«Os reis da terra, que se contaminaram com ela e que viveram em delícias, hão-de chorar e lamentar-se por sua causa, quando virem o fumo do seu incêndio».
Ap 18:9

«A natureza, nos diferentes lugares da Terra, tem-nos trazido, sucessivamente, tsunamis, ciclones, maremotos, inundações, ventos ciclópicos, tremores de terra e, agora, erupções de vulcões (...).
«São fenómenos naturais normais, dirão alguns, mais desatentos. Para aqueles que já vivem há mais de oito décadas, como eu, e nunca viveram nem tiveram conhecimento de nada semelhante, pela conjugação sucessiva de tantas catástrofes naturais, é prudente interrogarmo-nos: será que a mão inconsciente e desastrada do homem, que agride e maltrata o planeta e compromete os seus equilíbrios naturais, não terá nestes factos a sua dose de responsabilidade?
(...)
«Realmente, não é só a economia que está desregulada e a política incerta e insegura, à espera de melhores dias - não sabemos quantos - para vencer a crise. É também a natureza, com tantas catástrofes sucessivas. É tempo de a cidadania global abrir os olhos e reagir».
Mário Soares, DN, 2010 A.D.

Nota: Abraão viveu aprox. 10 vezes mais do que Soares e também ele não tivera conhecimento de nada semelhante ao que presenciou numa certa manhã: «Voltando os olhos para o lado de Sodoma e Gomorra e para a extensão da planície, viu elevar-se da terra um fumo semelhante ao fumo de uma fornalha». (Gn 19:28)

Nota 2: Cheguei ao Apocalipse de Soares via post de Helena Matos.

19/04/2010

Voyeurismo

«Mas sem dúvida que para mim é um prazer ver Messi jogar, é como ter um orgasmo, é um prazer incrível».
Luis Figo

«Eu vejo a energia de José Sócrates, a capacidade empreendedora, e espero que continue a ter essa capacidade de mobilizar o país. Bem precisamos
O mesmíssimo Luis Figo

18/04/2010

As minhas escolhas

 Manso Entre Lobos
Agência Portuguesa de Revistas, 1,5€ (no Alfarrabista)

Nunca li, nem tenho intenção de ler. Fica, no entanto, a sugestão, não só porque sei que há aficionados da colecção Búfalo entre os meus leitores, mas, sobretudo, pela actualidade do título!