01/02/2010
Sócrates não dorme
Não, caro leitor, não é outra vez a história da insónia por causa do desemprego. Sócrates não dorme enquanto não conseguir limpar a classe dos jornalistas.
31/01/2010
As minhas escolhas
No ano das comemorações do Centenário da República, postarei algumas sugestões de livros que nos ajudam a compreender melhor a sociedade da época, a natureza do golpe e alguns dos protagonistas.
Começo por um que considero bastante interessante e que, embora tendo por objectivo saber o que «significava ser vítima, quem era ela, o que fazia, porque o fora e como era olhada pelos poderes», também permite ao leitor compreender a importância política dos médicos da época e o modo como o "higienismo" influenciou certas concepções políticas e sociais que ajudaram a configurar a I República.
Vítimas e Violências na Lisboa da I República
de Maria Rita Lino Garnel
Imprensa da Universidade de Coimbra, 20€
Esta leitura contribui ainda para conhecer melhor Miguel Bombarda, um dos principais mentores "da República", triplamente homenageado na toponímia da minha freguesia. Cria o médico que a sua classe profissional era a única que poderia regenerar o povo português, graças à aplicação da ciência biológica. Os republicanos eram nacionalistas (patrióticos, para se distinguirem do Partido Nacionalista) e Miguel Bombarda acreditava que se podia provar cientificamente a especificidade do ser português. Os republicanos eram anti-clericais e Miguel Bombarda acreditava que os padres e, muito particularmente, os jesuítas, o eram devido à degenerescência dos respectivos cérebros. Os republicanos eram essencialmente machistas e Miguel Bombarda procurou demonstrar que, por natureza, a mulher tem uma construção cerebral defeituosa.
Detentora de todas as provas científicas da justeza das posições políticas republicanas, a medicina «ousava chamar a si não só a cura dos corpos individuais, mas também a tarefa imensa de regenerar Portugal» (p. 169). Ou, nas palavras do próprio Bombarda (cit. p. 244), «já é grande o papel do médico na sua faina de aliviar o sofrimento, de combater a doença. Mas como ele se não amplifica grandiosamente quando o enfermo é a sociedade inteira e a enfermidade é o erro a extirpar, as ilusões a desfazer, a superstição a esmagar...».
Chegados ao poder, estes eminentes alienistas empregaram-se na prova científica da anormalidade patológica da família real e dum conjunto de patologias das dinastias portuguesas. Infelizmente, os "médicos sociais" enganaram-se no prognóstico e no tratamento aplicado à sociedade portuguesa.
Começo por um que considero bastante interessante e que, embora tendo por objectivo saber o que «significava ser vítima, quem era ela, o que fazia, porque o fora e como era olhada pelos poderes», também permite ao leitor compreender a importância política dos médicos da época e o modo como o "higienismo" influenciou certas concepções políticas e sociais que ajudaram a configurar a I República.
Vítimas e Violências na Lisboa da I República
de Maria Rita Lino Garnel
Imprensa da Universidade de Coimbra, 20€
Esta leitura contribui ainda para conhecer melhor Miguel Bombarda, um dos principais mentores "da República", triplamente homenageado na toponímia da minha freguesia. Cria o médico que a sua classe profissional era a única que poderia regenerar o povo português, graças à aplicação da ciência biológica. Os republicanos eram nacionalistas (patrióticos, para se distinguirem do Partido Nacionalista) e Miguel Bombarda acreditava que se podia provar cientificamente a especificidade do ser português. Os republicanos eram anti-clericais e Miguel Bombarda acreditava que os padres e, muito particularmente, os jesuítas, o eram devido à degenerescência dos respectivos cérebros. Os republicanos eram essencialmente machistas e Miguel Bombarda procurou demonstrar que, por natureza, a mulher tem uma construção cerebral defeituosa.
Detentora de todas as provas científicas da justeza das posições políticas republicanas, a medicina «ousava chamar a si não só a cura dos corpos individuais, mas também a tarefa imensa de regenerar Portugal» (p. 169). Ou, nas palavras do próprio Bombarda (cit. p. 244), «já é grande o papel do médico na sua faina de aliviar o sofrimento, de combater a doença. Mas como ele se não amplifica grandiosamente quando o enfermo é a sociedade inteira e a enfermidade é o erro a extirpar, as ilusões a desfazer, a superstição a esmagar...».
Chegados ao poder, estes eminentes alienistas empregaram-se na prova científica da anormalidade patológica da família real e dum conjunto de patologias das dinastias portuguesas. Infelizmente, os "médicos sociais" enganaram-se no prognóstico e no tratamento aplicado à sociedade portuguesa.
28/01/2010
Mais um que tresmalhou
A sua defesa da estratégia socrática de "combate à crise" era tão férrea, parecia tão desesperada, que votei nele para o Prémio Lambe-Botas 2009. Não sei o que se passou entretanto, mas dei hoje com esta posta:
«já me penitenciei diversas vezes por ter prestado apoio à reeleição deste governo. Todos cometemos erros, e eu lamento o meu. Melhor dizendo, à reeleição deste PM. Não só ninguém acredita que o défice fosse desconhecido, como ninguém acredita que o OGE tenha sido elaborado com um mínimo de bom senso.»
O "rigor científico" com que agora "sustenta" os seus posts contra a política económica do Governo é o mesmo com que há pouco tempo a defendia, mas isso agora não interessa nada.
«já me penitenciei diversas vezes por ter prestado apoio à reeleição deste governo. Todos cometemos erros, e eu lamento o meu. Melhor dizendo, à reeleição deste PM. Não só ninguém acredita que o défice fosse desconhecido, como ninguém acredita que o OGE tenha sido elaborado com um mínimo de bom senso.»
O "rigor científico" com que agora "sustenta" os seus posts contra a política económica do Governo é o mesmo com que há pouco tempo a defendia, mas isso agora não interessa nada.
26/01/2010
Os outros que cumpram as regras
A DECO costuma ser muito exigente com todos os agentes económicos para que estes cumpram à risca todas as regras que delimitam as respectivas actividades. Por exemplo, está sempre a exigir mais informação na exposição de produtos, na rotulagem, etc. Mas quando se trata da sua própria actividade, a informação não abunda...
Vem este meu comentário a propósito de uma notícia veiculada hoje - veja-se o exemplo do Público, que exibe praticamente verbatim o que consta no sítio da DECO - segundo a qual «6 em cada 10 famílias tiveram dificuldade em seguir tratamentos médicos devido a problemas financeiros, revela um inquérito da DECO PROTESTE a 1639 famílias portuguesas.»
Para eu poder acreditar que são mesmo 6 em cada 10 famílias e não 6 em cada 7 ou 6 em cada 30, mais importante do que saber que foram inquiridas 1639, seria saber, por exemplo:
P.S. O tratamento, digamos, com muito boa vontade, jornalístico deste press release é o habitual - transcrição. É, por isso, curioso que o i coloque aspas em duas frases - como se as restantes não tivessem sido transcritas! :)
Vem este meu comentário a propósito de uma notícia veiculada hoje - veja-se o exemplo do Público, que exibe praticamente verbatim o que consta no sítio da DECO - segundo a qual «6 em cada 10 famílias tiveram dificuldade em seguir tratamentos médicos devido a problemas financeiros, revela um inquérito da DECO PROTESTE a 1639 famílias portuguesas.»
Para eu poder acreditar que são mesmo 6 em cada 10 famílias e não 6 em cada 7 ou 6 em cada 30, mais importante do que saber que foram inquiridas 1639, seria saber, por exemplo:
- pelo teor da notícia, presume-se que o Universo são todas as famílias portuguesas - isso é mesmo assim?
- como foi seleccionada a amostra?
- as 1639 inquiridas correspondem a que % de 'tentativas de inquirição'?
- qual foi o método de recolha de informação?
- quais foram as perguntas utilizadas para determinar a tal proporção de famílias que «tiveram dificuldade em seguir tratamentos médicos devido a problemas financeiros»?
P.S. O tratamento, digamos, com muito boa vontade, jornalístico deste press release é o habitual - transcrição. É, por isso, curioso que o i coloque aspas em duas frases - como se as restantes não tivessem sido transcritas! :)
23/01/2010
Já exportamos?
Como os leitores já deram conta, pela sequência de posts desta semana, insurgi-me aqui contra a ideia de que um acontecimento possibilitado por condições meteorológicas excepcionais - chamei-lhe "culpa de S. Pedro" - resultasse, afinal, da «opção, em boa hora, feita pelos Governos de José Sócrates nas energias renováveis», como escreveu o nosso (i.e. do nosso distrito) deputado Acácio Pinto. Na realidade, o sr. deputado mais não fez do que repetir a lenga-lenga do Primeiro Ministro, mas, há que reconhecer-lhe a honestidade, confirmando que a exportação líquida ocorreu apenas no mês de Dezembro - ao contrário do PM que afirmou «a produção hídrica e eólica permitiu que Portugal, no ano de 2009, exportasse mais energia do que aquela que importou para [sic] Espanha», conforme se pode ver neste vídeo do Expresso:
Eu já demonstrei no post anterior que este tipo de lenga-lenga é enganadora, i.e. não reflecte a realidade da produção nem do saldo importador. O que tenho a acrescentar neste post é a notícia que mereceu honras de 1.ª página no Expresso de hoje: no fim de contas, estamos a subsidiar a energia que damos a Espanha. Já agora, o Expresso não atribui a culpa ao S. Pedro, como eu, atribui-a ao "mau tempo".
21/01/2010
Três esses - S. Pedro, Sócrates e... Salazar
Com o email do deputado Acácio Pinto já fiquei esclarecido - afinal, o «já exportamos!» refere-se apenas ao mês de Dezembro de 2009 e, quando o deputado diz «No final do ano anterior 75% da energia produzida em Portugal teve a sua origem nas fontes renováveis», quer mesmo dizer final do ano, i.e. «última semana de Dezembro». O esclarecimento é importante porque confirma a tese do meu post original, a saber, que o título do artigo é propagandístico e a própria substância do artigo não se compadece com a realidade actual, a não ser nas condições muito extraórdinárias da última semana do ano!
Designadamente, os dados disponíveis não sustentam a ideia central que o sr. deputado pretende transmitir: «devendo-se, afinal, este desempenho à opção, em boa hora, feita pelos Governos de José Sócrates nas energias renováveis».
Em primeiro lugar, como se pode ver no gráfico de produção mensal ao longo de 2009, o mês de Dezembro é muito bem escolhido. A linha tracejada, que representa os valores medidos no eixo da direita, mostra que passámos todo o ano a importar electricidade, à excepção de, precisamente, Dezembro! Embora não seja situação virgem (no meu post anterior eu mostrei que isso até ocorreu nos valores anuais, em 1999), é algo extremamente raro no período dos «Governos de José Sócrates». Como eu tinha dito, este valor negativo no saldo de importação não se deve a Sócrates, deve-se a S. Pedro, que mandou para aí chuva como há muito não fazia, acompanhada das condições de vento que permitiram um aproveitamento da capacidade das eólicas superior a 40%, sensivelmente o dobro do que se verificou entre Fevereiro e Outubro.
Em segundo lugar, como se pode ver abaixo no gráfico da produção diária do mês de Dezembro, a última semana do ano também foi escolhida a dedo - só condições "astrais" muito excepcionais permitem ter vários dias consecutivos com várias barragens aproveitadas a mais de 90%, havendo mesmo registos de 99% em Caniçada e Salamonde. Portanto, se o deputado Acácio Pinto, para além do S. Pedro, quiser atribuir o mérito deste excepcional "desempenho" a algum humano, antes de Sócrates terá de elogiar... Salazar - ups!
Designadamente, os dados disponíveis não sustentam a ideia central que o sr. deputado pretende transmitir: «devendo-se, afinal, este desempenho à opção, em boa hora, feita pelos Governos de José Sócrates nas energias renováveis».
Em primeiro lugar, como se pode ver no gráfico de produção mensal ao longo de 2009, o mês de Dezembro é muito bem escolhido. A linha tracejada, que representa os valores medidos no eixo da direita, mostra que passámos todo o ano a importar electricidade, à excepção de, precisamente, Dezembro! Embora não seja situação virgem (no meu post anterior eu mostrei que isso até ocorreu nos valores anuais, em 1999), é algo extremamente raro no período dos «Governos de José Sócrates». Como eu tinha dito, este valor negativo no saldo de importação não se deve a Sócrates, deve-se a S. Pedro, que mandou para aí chuva como há muito não fazia, acompanhada das condições de vento que permitiram um aproveitamento da capacidade das eólicas superior a 40%, sensivelmente o dobro do que se verificou entre Fevereiro e Outubro.
Em segundo lugar, como se pode ver abaixo no gráfico da produção diária do mês de Dezembro, a última semana do ano também foi escolhida a dedo - só condições "astrais" muito excepcionais permitem ter vários dias consecutivos com várias barragens aproveitadas a mais de 90%, havendo mesmo registos de 99% em Caniçada e Salamonde. Portanto, se o deputado Acácio Pinto, para além do S. Pedro, quiser atribuir o mérito deste excepcional "desempenho" a algum humano, antes de Sócrates terá de elogiar... Salazar - ups!
Bravo, Pato!
Entre as escutas agora divulgadas no youtube que estão a fazer furor nos media, está aquela que Ricardo Araújo Pereira referia n'A Bola no passado mês de Março. Cito RAP:
«O caso explica-se depressa: o, digamos, jornalista Tavares-Teles escrevia uma coluna chamada O Pato no jornal O Jogo. Certo dia, o bem informado Pato sugeriu que Deco abandonaria a Selecção se fosse injustamente castigado pelo acto corriqueiro e inofensivo de ter atirado uma bota a um árbitro. A escuta da conversa telefónica entre o, digamos, jornalista Tavares-Teles e Pinto da Costa era precisamente sobre esse texto. Cito o jornal Correio da Manhã de 24 de Julho de 2007: «Pelo que se pode ler da transcrição da referida escuta telefónica percebe-se (…) que, além de ter sido combinado, o teor do texto era falso, já que, conforme assumiu Pinto da Costa noutra conversa telefónica, servia apenas como forma de pressão e de chantagem para com os elementos do Conselho Disciplinar da Liga de Clubes».
Ora, convém não esquecer que é também fresca a notícia de que o STJ confirmou a condenação do presidente de um clube rival «na sequência de um processo por injúrias e atentado ao bom nome» ao autor do Pato. O presidente injuriou-o, nomeadamente quando o acusou de «de escrever artigos de opinião "encomendados"».
«O caso explica-se depressa: o, digamos, jornalista Tavares-Teles escrevia uma coluna chamada O Pato no jornal O Jogo. Certo dia, o bem informado Pato sugeriu que Deco abandonaria a Selecção se fosse injustamente castigado pelo acto corriqueiro e inofensivo de ter atirado uma bota a um árbitro. A escuta da conversa telefónica entre o, digamos, jornalista Tavares-Teles e Pinto da Costa era precisamente sobre esse texto. Cito o jornal Correio da Manhã de 24 de Julho de 2007: «Pelo que se pode ler da transcrição da referida escuta telefónica percebe-se (…) que, além de ter sido combinado, o teor do texto era falso, já que, conforme assumiu Pinto da Costa noutra conversa telefónica, servia apenas como forma de pressão e de chantagem para com os elementos do Conselho Disciplinar da Liga de Clubes».
Ora, convém não esquecer que é também fresca a notícia de que o STJ confirmou a condenação do presidente de um clube rival «na sequência de um processo por injúrias e atentado ao bom nome» ao autor do Pato. O presidente injuriou-o, nomeadamente quando o acusou de «de escrever artigos de opinião "encomendados"».
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