23/01/2010

Já exportamos?

Como os leitores já deram conta, pela sequência de posts desta semana, insurgi-me aqui contra a ideia de que um acontecimento possibilitado por condições meteorológicas excepcionais - chamei-lhe "culpa de S. Pedro" - resultasse, afinal, da «opção, em boa hora, feita pelos Governos de José Sócrates nas energias renováveis», como escreveu o nosso (i.e. do nosso distrito) deputado Acácio Pinto. Na realidade, o sr. deputado mais não fez do que repetir a lenga-lenga do Primeiro Ministro, mas, há que reconhecer-lhe a honestidade, confirmando que a exportação líquida ocorreu apenas no mês de Dezembro - ao contrário do PM que afirmou «a produção hídrica e eólica permitiu que Portugal, no ano de 2009, exportasse mais energia do que aquela que importou para [sic] Espanha», conforme se pode ver neste vídeo do Expresso:

Eu já demonstrei no post anterior que este tipo de lenga-lenga é enganadora, i.e. não reflecte a realidade da produção nem do saldo importador. O que tenho a acrescentar neste post é a notícia que mereceu honras de 1.ª página no Expresso de hoje: no fim de contas, estamos a subsidiar a energia que damos a Espanha. Já agora, o Expresso não atribui a culpa ao S. Pedro, como eu, atribui-a ao "mau tempo".

21/01/2010

Três esses - S. Pedro, Sócrates e... Salazar

Com o email do deputado Acácio Pinto já fiquei esclarecido - afinal, o «já exportamos!» refere-se apenas ao mês de Dezembro de 2009 e, quando o deputado diz «No final do ano anterior 75% da energia produzida em Portugal teve a sua origem nas fontes renováveis», quer mesmo dizer final do ano, i.e. «última semana de Dezembro». O esclarecimento é importante porque confirma a tese do meu post original, a saber, que o título do artigo é propagandístico e a própria substância do artigo não se compadece com a realidade actual, a não ser nas condições muito extraórdinárias da última semana do ano!
Designadamente, os dados disponíveis não sustentam a ideia central que o sr. deputado pretende transmitir:  «devendo-se, afinal, este desempenho à opção, em boa hora, feita pelos Governos de José Sócrates nas energias renováveis».
Em primeiro lugar, como se pode ver no gráfico de produção mensal ao longo de 2009, o mês de Dezembro é muito bem escolhido. A linha tracejada, que representa os valores medidos no eixo da direita, mostra que passámos todo o ano a importar electricidade, à excepção de, precisamente, Dezembro! Embora não seja situação virgem (no meu post anterior eu mostrei que isso até ocorreu nos valores anuais, em 1999), é algo extremamente raro no período dos «Governos de José Sócrates». Como eu tinha dito, este valor negativo no saldo de importação não se deve a Sócrates, deve-se a S. Pedro, que mandou para aí chuva como há muito não fazia, acompanhada das condições de vento que permitiram um aproveitamento da capacidade das eólicas superior a 40%, sensivelmente o dobro do que se verificou entre Fevereiro e Outubro.

Em segundo lugar, como se pode ver abaixo no gráfico da produção diária do mês de Dezembro, a última semana do ano também foi escolhida a dedo - só condições "astrais" muito excepcionais permitem ter vários dias consecutivos com várias barragens aproveitadas a mais de 90%, havendo mesmo registos de 99% em Caniçada e Salamonde. Portanto, se o deputado Acácio Pinto, para além do S. Pedro, quiser atribuir o mérito deste excepcional "desempenho" a algum humano, antes de Sócrates terá de elogiar... Salazar - ups!

Bravo, Pato!

Entre as escutas agora divulgadas no youtube que estão a fazer furor nos media, está aquela que Ricardo Araújo Pereira referia n'A Bola no passado mês de Março. Cito RAP:
«O caso explica-se depressa: o, digamos, jornalista Tavares-Teles escrevia uma coluna chamada O Pato no jornal O Jogo. Certo dia, o bem informado Pato sugeriu que Deco abandonaria a Selecção se fosse injustamente castigado pelo acto corriqueiro e inofensivo de ter atirado uma bota a um árbitro. A escuta da conversa telefónica entre o, digamos, jornalista Tavares-Teles e Pinto da Costa era precisamente sobre esse texto. Cito o jornal Correio da Manhã de 24 de Julho de 2007: «Pelo que se pode ler da transcrição da referida escuta telefónica percebe-se (…) que, além de ter sido combinado, o teor do texto era falso, já que, conforme assumiu Pinto da Costa noutra conversa telefónica, servia apenas como forma de pressão e de chantagem para com os elementos do Conselho Disciplinar da Liga de Clubes».

Ora, convém não esquecer que é também fresca a notícia de que o STJ confirmou a condenação do presidente de um clube rival «na sequência de um processo por injúrias e atentado ao bom nome» ao autor do Pato. O presidente injuriou-o, nomeadamente quando o acusou de «de escrever artigos de opinião "encomendados"».

Resposta do deputado Acácio Pinto

Com a devida autorização, reproduzo na íntegra a resposta (ao post anterior) que o deputado Acácio Pinto teve a gentileza de me enviar.


Meu Caro Amigo,

Antes de mais permita-me que o cumprimente pela interpelação que me faz.
É evidente que as energias renováveis (eólica e hídrica) devem a sua maior ou menor produção às condições meteorológicas. Mas também sabe que há estudos climatológicos que permitem definir um conjunto de normais climáticas que sustentam os investimentos sabendo-se que este desempenho não é uniforme ao longo do ano.
Concordará também, com certeza, que as renováveis tiveram um grande incremento nos últimos cinco anos de Governo do PS e de José Sócrates.
Sabe, de igual modo, que no nosso distrito irão ser construídas três novas barragens (Girabolhos, em Mangualde, no Mondego; Pinhosão, no Vouga, em S. Pedro do Sul; Ribeiradio, no Vouga, em Oliveira de Frades, esta já em construção) e sabe também que o distrito de Viseu é dos principais produtores de energia eólica a nível nacional (Serras do Caramulo, Montemuro, Nave/Leomil, Santa Helena, Meadas...).
Portugal desenvolveu, igualmente, uma fileira industrial em torno destas energias e temos um sector económico organizado em torno destas energias (destaco p.e. a Martifer em O.Frades, onde são produzidos torres eólicas e respectivos equipamentos de produção) entre outras indústrias dispersas pelo país e que, inclusivamente, já exportam torres.
Mas deixe-me também falar-lhe na energia fotovoltaica que se está a disseminar por todo o país, com destaque para o Alentejo onde há muitas grandes centrais de produção de energia a partir da solar e que a Martifer tem, em Oliveira de Frades, um unidade de produção, moderníssima, toda robotizada.
Enfim, esta discussão levar-nos-ia muito longe. Mas parece-me que não restam dúvidas de que esta foi uma boa aposta que dinamizou a economia, criou emprego e acaba por reduzir a importação de energia fóssil.
Quanto aos dados apresentados eles são referentes ao mês de Dezembro de 2009 em que Portugal exportou mais energia para Espanha do aquela que importou.
Quanto aos 75% de energia conseguida a partir da eólica e hídrica refere-se à última semana de Dezembro.
Não há, portanto, nada de errado no que afirmo. A sua análise, que respeito, é feita numa escala de tempo alargada e recua até uma época em que estas energias ainda não estavam tão disseminadas. Creio que nos próximos anos vamos continuar a melhorar o nosso desempenho, sendo que temos também que investir na eficiência energética.
Muito mais haveria a dizer...


Os meus cumprimentos e ao dispor.


Acácio Pinto

20/01/2010

A culpa de S. Pedro

Acácio Pinto, ex-Governador Civil de Viseu e agora deputado pelo distrito, escreveu no Farol da Nossa Terra um pequeno artigo com o título Energia: já exportamos! Passando do título à substância do artigo, o que se depreende é que, no mês de Dezembro, «75% da energia produzida em Portugal teve a sua origem nas fontes renováveis» e «Portugal, ter exportado mais energia para Espanha do que aquela que importou». O que o sr. deputado não quer dizer é o mais importante. Apesar de grandes vultos da ciência, como o dr. Mário Soares, garantirem que a acção humana substituiu o S. Pedro, essa mesma acção humana ainda não é capaz de garantir as condições meteorológicas para uma produção constante de energia eléctrica a partir da água e do vento. Logo, historicamente, os picos de produção a partir destas fontes situam-se entre Dezembro e Março. O sr. deputado quer-nos dizer que percentagem de "energia produzida em Portugal teve a sua origem nas fontes renováveis" no mês de Junho?
Se há flutuações dentro de cada ano, há também flutuações entre anos. Quando chove muito, produz-se mais energia nas instalações hídricas e reduz-se a produção através de fontes combustíveis. Quando chove menos, há que produzir mais nas centrais térmicas. Os dados anualizados da Direcção-Geral de Energia e Geologia mostram que, de Novembro de 2008 a Outubro de 2009 (os últimos que aquele organismo disponibiliza ao público), a percentagem de energia de fontes renováveis (incluindo as menos limpas biomassa com co-geração e a gerada a partir de RSU) foi de 31,5%, muito longe dos 75% que o sr. deputado nos quer vender.
Mostram também os números que, nos últimos 15 anos, 1999 foi o único em que Portugal exportou mais energia eléctrica do que aquela que importou. O deputado Acácio Pinto apresenta a ideia de que a «opção, em boa hora, feita pelos Governos de José Sócrates nas energias renováveis (...) [permite] nos tornar menos dependentes do estrangeiro e das energias fósseis», mas o que os números me dizem é que, durante esse período de governação, se importou mais energia do que no quinquénio anterior. Talvez por culpa do S. Pedro, que dirige a única Entidade Reguladora não controlável - a da meteorologia.

Pós-texto 21-1-2010 22:45 - Aconselho a leitura da resposta que me enviou o deputado Acácio Pinto (aqui) e da minha análise com informação gráfica da produção de electricidade para demonstrar que o que ocorreu em Dezembro de 2009 é excepcional e não pode ser atribuído aos «Governos de José Sócrates» (aqui).

Posso ter o meu dinheiro de volta?

Já paguei duas multas por excesso de velocidade - uma por "circular" (eu não costumo circular, guio mesmo a direito!) a uns estonteantes 83 Km/h, a outra a uns mais comedidos 77 Km/h. Em nenhum dos casos a minha condução punha em risco peões, o argumento invocado para limitar a "circulação" aos 50 Km/h da praxe, em zonas que são urbanas porque um maluquinho qualquer se lembrou de colocar uma placa com o nome da localidade. Paguei porque não gosto de ficar a dever, mas barafustei com os autuantes, dizendo-lhes que, se tivessem preocupações com a segurança, iriam medir as velocidades para sítios com passadeiras, em vez de o fazerem em rectas no meio do deserto.
Passados alguns anos, finalmente, já tenho um "estudo" para esfregar na cara dos respeitáveis autuantes, ou, melhor ainda, dos respectivos superiores, que confundem meios com objectivos e medem a segurança pelo número de contra-ordenações. Ora, seria da mais elementar justiça que os ditos superiores fossem agora contra-ordenados, i.e. que lhes descontassem dos seus ordenados o valor das minhas multas :p
Senhores autuantes, ponham as fuças a jeito s.f.f.:
«“Mais de metade dos troços rodoviários em Portugal estão com limites de velocidade abaixo do que deviam. É muito recorrente o limite de 50 Km/hora em zonas onde não há casas nem outros conflitos laterais”, disse hoje à Lusa Ana Bastos (...) A especialista em transportes e segurança rodoviárias, docente na FCTUC, frisou que a desadequação do limite de velocidade às características da estrada “viola as naturais expectativas do condutor, que acaba por transgredir” e tem como efeito “o descrédito total” das regras de trânsito.» (i online)

Gestão por objectivos

Para repor o financiamento das universidades ao nível que estava quando Sócrates chegou a PM (2005), o Governo propôs "contratos de confiança", os quais, segundo o próprio PM, demonstram que as universidades confiam na "linha política de aposta na ciência, na tecnologia, no investimento na inteligência, no ensino superior".
O que foi, então, contratualizado? Que, a partir de agora, as universidades, com maior folga orçamental, só atribuem diplomas a formandos que demonstrem as competências mínimas para o curso que frequentam? Não, as universidades vão passar a dar canudos de forma (ainda) mais expedita.
Ao contrário do investimento no alcatrão ou no TGV, o "investimento na inteligência" tem retorno imediato e perfeitamente quantificável. A taxa de insucesso vai ter uma quebra de 50%. Claro está que esta "confiança mútua" Universidades-Governo, Governo-Universidades não se compadece com a elaboração de sofisticados e complicados - quer dizer, "académicos" - índices de sucesso. Mede-se simplesmente pela "proporção de diplomados num determinado ano, em relação aos inscritos pela primeira vez no 1° ano". "Simplesmente" é uma força de expressão, já que nem todos os diplomados serão capazes de calcular esta taxa.