11/09/2009

Vergonha

Já não sei se é demasiada incompetência ou se é extrema falta de decoro!
Na tag Ai os media tenho apresentado, predominantemente, problemas do jornalismo português no tratamento e na interpretação de números. Destaco casos em que o jornalista procede a cálculos incorrectos (Ex: Marcelino; Lusa) e, sobretudo, casos em que reproduz buzzwords de press releases sem fundamentação numérica ou estatística (Ex: "Inquérito feito pela SurveyShack a pedido da Microsoft").

A um nível superior está o trabalho (!) de Paulo Chitas na Visão. Diz Paulo Guinote que ele «selecciona e retorce estatísticas como bem entende». A intervencionista ERC, tão preocupada com a comunicação não verbal de pivots, não tem nada a dizer sobre este género de trabalhos?
A seguir neste link.

10/09/2009

As minhas escolhas

O Dossiê Sócrates
Lulu, 21€ ou PDF gratuito

Dada a reacção de Sócrates ao blogue, o autor recomenda «aos leitores, pelos motivos conhecidos, a precaução de obterem rapidamente o livro (na versão digital gratuita ou na versão impressa paga). Antes que seja tarde...»
Eu já tenho a versão gratuita e comecei a leitura pelo epílogo. Confirmo a ideia que tinha do aluno Sócrates - nunca vi um aluno cujo "processo" académico contivesse tantas rasuras, incoerência de datas, professores a darem notas sem estarem ao serviço da escola... é preciso ser muito azarento!

09/09/2009

Governabilidade

Algumas ideias que tenho defendido. Pela escrita de um politólogo - no caso, o André Freire - têm outra relevância. Aqui fica um "roubo" a um ladrão de bicicletas:

«Portugal poderá vir a ter um problema de governabilidade mas ele não resulta do sistema eleitoral: já é mais desproporcional do que a média dos regimes proporcionais europeus. Nem da fragmentação partidária: a concentração nos dois grandes aproxima-nos dos regimes maioritários. Os problemas de governabilidade são políticos, não institucionais. [...] Mas há outras medidas que poderiam reforçar a governabilidade: a moção de censura construtiva (para se derrubar um governo seria necessário propor um alternativo) e medidas equivalentes (uma espécie de “orçamento construtivo”, etc.); incentivos à cooperação entre os partidos. Além disso, o nosso sistema eleitoral induz os deputados a quase só se preocuparem em agradar às lideranças. Para melhorar a representação é preciso dar aos eleitores o poder de escolher os deputados em cada lista.»

08/09/2009

O argumento do respeito por tratados internacionais

Transcrevo o comentário de Carlos Eduardo da Cruz Luna no post "TGV para Olivença":

«ESTRANHOS ARGUMENTOS EM TORNO DO TGV
Não é intenção deste artigo de opinião emitir juízos sobre a construção, ou não, do TGV (Madrid-Badajoz-Elvas-Lisboa), da sua oportunidade, ou outras considerações. Para isso, muito se tem escrito e escreverá, e será óptimo que a opinião pública esteja o mais esclarecida possível.
Há, todavia, um aspecto que deixa qualquer conhecedor de um mínimo de História das relações luso-espanholas algo perplexo. Na verdade, declarações de dirigentes espanhóis, principalmente do Presidente da Extremadura espanhola, não podem deixar, no mínimo, de fazer sorrir alguns portugueses.
Assim, Guillermo Fernández Vara (natural de Olivença) diz não acreditar que Portugal desista do TGV, «rompendo o acordo entre os dois países», pois trata-se de um «compromisso internacional»; acrescenta que «Portugal, à semelhança dos seus dirigentes políticos, é um país sério que sabe até onde tem de caminhar para preparar o futuro(...)». Comentaristas de jornais espanhóis opinam que Portugal não honrará os seus compromissos se desistir do TGV, e que mesmo em termos morais tal atitude é criticável. No dia 1 de Setembro, numa reunião em Elvas entre autarcas portugueses e espanhóis (Cáceres, Mérida, Plasencia, Olivença e Lobón) para apoiar o TGV, Angel Calle, de Mérida, em representação dos alcaides espanhóis, afirmou, entre outras coisas, que «os acordos internacionais são para cumprir(...)».
Ora, há algo nesta indignação que soa a contradição flagrante. Na verdade, todos estes dirigentes políticos parecem esquecer-se de que, para Portugal, há um acordo internacional não cumprido pela Espanha (1814-1815-1817), segundo o qual Olivença deveria ter voltado à posse de Portugal. Razão porque o Estado Português não aceita, até hoje, que Olivença seja território juridicamente espanhol. Curiosamente, em relação à obrigação da devolução, e talvez como ironia suprema face ao que está a acontecer, houve até quem já escrevesse que a Espanha só teria uma obrigação moral, portanto não claramente vinculativa.
Será que todos estes autarcas e políticos em geral têm consciência de como soam a falaciosos, neste contexto, alguns dos seus argumentos? Conheço alguns deles. Penso serem pessoas de bem, e dirigentes que fazem o que podem pelos seus povos, e até que querem mesmo promover a amizade com Portugal. Não questiono esse aspecto, nem os inúmeros argumentos económicos a favor do TGV. Talvez apoie, ou não, alguns deles. Mas, por favor, não usem demasiado o argumento do respeito por tratados internacionais. Não lhes fica bem.»

Estremoz, 02 de Setembro de 2009
Carlos Eduardo da Cruz Luna

06/09/2009

As minhas escolhas

O Paradoxo da Escolha
A Girafa, 54R$

Este livro diz-nos muito sobre o problema da decisão de voto e das 'boas' estratégias para o solucionar (!) que mencionei no meu post anterior.
O principal ponto de Barry Schwartz é que nos sentimos infelizes pelo medo de não tomarmos a melhor decisão. Podemos evitar culpas e arrependimentos simplesmente baixando as expectativas quanto ao resultado das nossas decisões.

Onde está o Norte?

Bússola Eleitoral

Os modelos de comportamento eleitoral que estão "nos bastidores" da produção dos gráficos acima pressupõem que os eleitores formam preferências a partir de "atributos" dos partidos, neste caso, posições sobre aquilo que os autores consideram "domínios políticos".

O posicionamento (gráfico de cima) é calculado a partir de uma versão simples do chamado "modelo do ponto ideal". O eleitor tenderia a identificar-se com o partido mais próximo num determinado número de dimensões (aqui, 2). A ideia é interessante e permite até que, na elaboração do gráfico, o potencial votante decida que "domínios" incluir, mas não admite uma alternativa básica que é considerar uma das dimensões muito mais importante do que a outra - p. ex., a distinção entre esquerda e direita pode ser muito mais importante para influenciar a decisão de voto do que a distinção entre libertário e tradicionalista. Por outro lado, o cálculo da proximidade entre eleitor e partidos pressupõe ortogonalidade das dimensões, o que não se verifica no espaço dos partidos - nitidamente, os partidos nacionalistas e tradicionalistas são de direita. No espaço partidário, é possível criar uma "faceta" que resume a "informação" daquelas duas dimensões:

Quanto ao "score de concordância", é um caso típico de modelo compositivo, i.e. funciona como se a atitude face a um partido dependesse das posições mútuas de partido e eleitor em todas as 28 questões (ou aquelas a que tenha respondido - eu não respondi a todas, porque achei que algumas eram complexas, i.e. misturavam conceitos ou não me pareceram adequadas para responder naquela escala de concordância). Penso que este cálculo de concordância terá pouca utilidade para explicar o voto. Pelas seguintes razões:

  1. A proximidade e/ou identificação com os partidos baseia-se, para grande parte dos eleitores, em impressões vagas e em reacções emocionais que sustentam atitudes gerais face ao partido, as quais tendem a polarizar-se (positivo-negativo; a favor-contra; etc.)
    Quando o eleitor conhece posições do partido sobre um "domínio político", tende a avaliar este domínio segundo a referida polarização. Ex: O eleitor A é favorável ao investimento imediato no TGV porque simpatiza com o PS. Precisamente o inverso da teoria subjacente, que considera que uma das razões para votar PS seria este partido defender o TGV.
  2. Mesmo os eleitores sem filiação partidária mais envolvidos nos "domínios políticos", que usam critérios "racionais" para decidir o voto, fazem-no habitualmente a partir de um único "atributo" ou de um número de atributos muito reduzido. Ex: Para o eleitor B basta saber qual a posição dos partidos (num determinado conjunto de escolha, ele também reduzido) relativamente à avaliação dos professores ou aos despedimentos na função pública.
  3. A forma como o 'mercado' eleitoral evoluiu em Portugal levou a que o peso das impressões, simpatias e antipatias relativamente aos líderes partidários seja mais importante do que a avaliação ponderada das posições partidárias nos diversos "domínios políticos". Ex: por mais próximo que o meu lápis (1.º gráfico em cima) possa estar do PS, eu nunca votarei neste partido numa eleição da AR, enquanto ele for liderado pelo . No way, José.

O meu conselho: no próximo dia 27, vote conforme lhe der na real gana e consulte a bússola depois de ter votado!

02/09/2009

TGV para Olivença

Estive de férias num país que deixou deteriorar a um nível absurdo a rede ferroviária que ligava as regiões mais povoadas. Enquanto se discute (?) o trem-bala, restam umas linhas museológicas/ históricas/ turísticas (foto ao lado) e uma ou outra utilizada no trasporte de mercadorias a velocidades na ordem de 20 Km/h.

Foi ainda em férias que tive conhecimento de uma "medida" do programa eleitoral do PSD, em castelhano (ABC, 29-8-2009): «Suspenderemos inmediatamente los procesos de adjudicación en curso para la alta velocidade». «El partido liderado por Manuele Ferreira Leite considera que es imprescindible la puesta en valor del sector ferroviario portugués, priorizando la rehabilitación y desarrollo de la red ferroviaria convencional (...)» (sublinhado meu). Gostei de ler ;)

A notícia vinha na secção sobre a Extremadura, já que o anúncio de MFL deixa preocupados os estremenhos. «De ganar las elecciones el PSD, la línea AVE que afecta a Extremadura quedaría en suspenso en el tramo Lisboa-Badajoz, no cumpliendo así los pactos internacionales firmados con España (...)» (sublinhado meu). Nesta questão de pactos internacionais, seria bom recordar aos responsáveis estremenhos o Congresso de Viena. Já que se propõem a construir a linha do AVE "independentemente do que fizerem os portugueses", sugiro que a levem até Olivença :)

P.S. lembrei-me dum post que escrevi há dois anos... e disto! :(