05/08/2009

Porto de Lisboa e Benfica

Foto de northfromhere
A comparação do Miguel é sexy, mas não é exacta. Como toda a gente vê - e a ex-controladora do Ministério da Construção e Obras Públicas escreveu - o Estado concede receitas a privados e assume para si (quer dizer, contribuintes) os riscos. O paradigmático caso do Porto de Lisboa, pelas "cedências do Concedente para realizar este contrato em tempo recorde" tem algumas semelhanças com o Benfica, mas há que assinalar as diferenças, já que o negócio do Porto é muito mais pernicioso para o concedente.
O Porto, como as SCUTs e PPPs de que fala o Miguel, assume riscos que poderiam ser privados e prejudica a sua «bancabilidade», precisando de aval do Estado para financiar obra que vai beneficiar a Liscont.
O Benfica ganha um pouco mais de "espírito-santidade" graças à solidariedade da Sociedade Central de Cervejas e Bebidas, que assume o risco sobre o número de benfiquistas que vai largar a Super Bock em favor da Sagres (os portistas não bebem Sagres e os sportinguistas não contam).
O Benfica depende de Jesus para manter viva a "chama imensa" do Espírito Santo, em Sagreadas eucaristias na Catedral. No Porto de Lisboanão há ilusão possível, já todos viram o Coelho Liscondido com rabo de fora.

Empata votos

O chamado "empate técnico" continua a proporcionar títulos interessantes. Desta vez, manchete do Diário Económico:
PS ganha vantagem nos votos mas mantém empate técnico com PSD

Títulos à parte, a figura ao lado mostra que as duas últimas sondagens da Marktest "estão empatadas", i.e. não se vislumbra qualquer evolução significativa no último mês.

Embora inferior à das Europeias, a "abstenção" nas sondagens está acima de 40%, pelo que são de admitir desvios significativos no voto real. Oliveira e Costa queixava-se dos falsos votantes. Irá a Marktest queixar-se dos falsos indecisos? :)

23/07/2009

Arrefecimento global

O Grande Líder, movido pela inesgotável boa energia do ministro dos cornos, vai conseguir «safar» o planeta. O preço a pagar por tão nobre missão é a islandização de Portugal. Dito de outra forma - Portugal vai congelar e «safa-se» quem tiver o mapa dos géiseres.

19/07/2009

As minhas escolhas

Pelas Linhas da Nostalgia
Afrontamento, 14,50€
Não consigo compreender como os políticos de um país falam permanentemente na promoção de transportes menos poluentes, gladiam por projectos «estruturantes» de comboios de alta velocidade e, ao mesmo tempo, decretam ou autorizam a desactivação da rede de caminhos de ferro que tantos sacrifícios custou aos nossos bisavós.

Para quem gosta de caminhar, resta-nos o consolo de trilhar alguns percursos de elevado valor patrimonial e paisagístico. Por enquanto.

15/07/2009

O modelo Dinamarquês

Este post de Sérgio Deusdado suscitou-me a curiosidade de consultar as estatísticas relativas ao peso da receita fiscal na economia. O gráfico abaixo apresenta, no eixo vertical, os valores dessa variável nos países da OCDE, em 2007. Para ver a dinâmica recente, representa-se também o valor de Portugal em 2001. O gráfico confirma a percepção comum: o peso dos impostos em Portugal tem aumentado. Usando uma expressão bem cara a Rui Tavares, dir-se-ia que o agravamento da fiscalidade foi uma das "políticas que nos trouxe a esta crise". Eu não diria tanto, mas digo que o aumento da fiscalidade não nos dotou de ferramentas para sair da crise "por cima".
Ouvido hoje na Comissão de Orçamento e Finanças, o Governador do Banco de Portugal disse que a «consolidação estrutural» das finanças públicas tanto pode ocorrer com elevada fiscalidade (deu o exemplo da Dinamarca) como com uma fiscalidade mais reduzida (deu o exemplo da Irlanda). Foi esta prelecção do sr. Governador ao deputado Frasquilho que me sugeriu a inclusão no gráfico de outra variável, para demonstrar que o "modelo dinamarquês", mesmo sem TGV, só funciona num determinado contexto cultural que não abrange os países latinos nem as antigas "repúblicas democráticas". Essa variável, corrupção percebida, está representada no eixo horizontal em escala inversa, i.e. os países mais corruptos estão à esquerda.

Ao cimo, do lado direito, temos o cluster nórdico. A taxação é pesada, os cidadãos pagam com responsabilidade um Estado que consideram poder controlar democraticamente. Do lado inverso está o México, onde fugir aos impostos é uma virtude, já que o Estado emprega mal, supostamente sujeito a interesses particulares, os impostos que consegue "extorquir" aos cidadãos menos avisados. Curiosamente, o case-study, qual aberração, deveria ser a Suiça - sem se fazer pagar por isso de forma exagerada, a Administração consegue seguir razoáveis padrões éticos!
O que eu temo, na estratégia de sair da crise "por cima", é uma situação idêntica à que descrevi há duas semanas, na comparação dos rankings PISA e FIFA. No futebol, Portugal está a deixar o grupo dos latinos e a nivelar-se pelos nórdicos. Infelizmente, o mesmo não acontece nas competências científicas adquiridas no ensino, onde continuamos bem latinos. Na fiscalidade, existe ambição para chegarmos aos patamares nórdicos, mas no combate à corrupção, sendo muito difícil chegar ao nível da Itália, estamos de olhos postos na Hungria e na Rép. Checa.

09/07/2009

Maioria absoluta?

Na tag Ai os media tenho revelado artigos jornalísticos, nomeadamente com origem na Lusa, que aceitam press releases sobre divulgação de "estudos", frequentemente apresentados como de cariz científico, cujas conclusões são mal fundamentadas em números ou estatísticas. Aos interessados, sugiro a leitura de posts onde declaro como falsos os seguintes títulos:
Três em cada quatro portugueses estão ligados à net
Portugal tem taxas de acesso à Internet superiores à média da União Europeia

Hoje apresento uma situação diferente, mas com génese na mesma facilidade com que a Lusa reencaminha as conclusões dos "estudos" promovidos por qualquer organização. Que falta faz um Gary Langer :)
O Público faz o título Maioria dos juízes não confia no programa informático CITIUS, explicitando depois que «Um estudo da Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP) sobre a utilização do CITIUS revela que 60 por cento dos juízes não confia na fiabilidade e segurança do programa» e que «O inquérito, de resposta anónima, foi enviado aos juízes em Maio e Junho, tendo sido consideradas 132 respostas, que representam 13,3 por cento do universo dos magistrados que neste momento trabalham obrigatoriamente com o CITIUS».

O título do Público é válido se se verificarem algumas condições. Se foi seleccionada uma amostra aleatória de 132 juízes do universo de 993 utilizadores do CITIUS. Se os 60% se reportam a uma base de 132. Nesse caso, podemos calcular o intervalo de confiança do estimador da resposta. Tendo em conta a taxa de sondagem (relevante neste caso, porque o universo é um pequeno domínio), para o típico nível de confiança de 95%, a margem de erro seria aprox. 8%, pelo que poderíamos dizer que a percentagem de juízes que "não confiam" se situa entre 52% e 68%.

E se aquelas condições não se verificarem? A minha resposta varia de acordo com a situação. Se o inquérito "foi enviado" aos 993 utilizadores e só responderam 132, o melhor é mandar o "estudo" para a reciclagem. Se "foi enviado" a uma amostra aleatória de n > 132, depende do rácio n/132. Se este valor for grande, seria necessário admitir que a "verdadeira" resposta não difere entre os que responderam e os que não responderam, o que é um pressuposto um bocado violento!

Finalmente, seria necessário ver como foi formulada a questão. O texto diz «não confia na fiabilidade e segurança», ou seja, apresenta a mesma resposta para dois conceitos diferentes. Se houve apenas uma pergunta para ambos os conceitos, é um mau indício.

Gary Langer não daria luz verde à publicação da notícia sem conhecer o questionário e as tabulações absolutas. Eu penso que um bom jornalista não faria aquele título sem se assegurar da qualidade do "estudo". O i optou por uma versão mais 'garantista': Estudo indica que maioria dos juízes não confia no programa informático CITIUS. Melhor teria sido incluir a referência ao promotor do estudo, colocando «da ASJP» entre "Estudo" e "indica", julgo eu, que não sou jornalista.