31/05/2009

As minhas escolhas

Há muito que esperava pela saída de um livro como este. A expectativa era tão grande que esta semana fiz a escolha em regime de exclusividade:


Portugal: Ensaios de História e de Política
Alêtheia, 16€
Diz-se que é uma «obra fundamental para a compreensão do século XIX e XX português [sic]», mas é-o também para compreender as principais características do regime político e da estrutura económica do Portugal deste início do séc. XXI.
Dedico esta escolha a todos os que têm orgulho de residir numa rua chamada Miguel Bombarda (topónimo com dupla ocorrência na minha freguesia) e espero que da sua leitura resulte uma visão diferente sobre os méritos da I República. Como aperitivo, aqui fica a justificação do autor para as comemorações da implantação da República que estão prometidas para o próximo ano: «certos republicanos, eram antisalazaristas e começou a criar-se a lenda de que se a ditadura salazarista era má a ditadura republicana, a que ninguém chamava ditadura, era boa».

A boa energia

Segundo o Ministério da Economia e da Inovação, Portugal é «um dos países mais avançados do mundo» na área das energias renováveis. Este milagre deve-se à orientação política verde do partido rosa. O PS fará o possível e o impossível para parar o aquecimento global e tem insistido que o investimento na produção de energia tem efeitos na redução do défice a longo prazo, graças ao «aumento da autonomia energética».

Pode ler-se num blogue socialista:
As políticas energéticas requerem alterações drásticas e conscientes nos hábitos de gasto energético, no parque edificado privado e público passando por soluções de isolamento térmico, reabilitação, água quente solar bem como na escolha da iluminação. A nossa política de mobilidade é uma catástrofe rodoviária, é evidente a necessidade de eliminar vícios e erros insustentáveis.
(...)
Porque cada cidadão tem notório impacto nos consumos de energia, devemos todos agir numa lógica de sustentabilidade e autonomia energética.

Perante isto, só mais uma campanha negra da Lusa poderia dar à luz esta notícia: PS sem solução para o problema do calor nos seus comícios à norte-americana.

Detalhemos o gravíssimo problema do sobreaquecimento eleitoral do PS:
  1. O PS contrata americanos para fazer comícios à americana.
  2. O «estilo norte-americano» exige «uma forte intensidade de luz». Este "notório impacto nos consumos de energia" [digo eu] justifica-se pelas «vantagens em termos de efeitos visuais que este tipo de comícios tem sobretudo para o telespectador - três mil pessoas dão facilmente a sensação de multidão».
  3. Esta «forte intensidade de luz» provoca «um calor tremendo no interior dos recintos», o tal para o qual o PS não tem solução.
  4. «Segundo fonte da candidatura de Vital Moreira, nos últimos tempos o PS ainda tentou atenuar o problema do excessivo aquecimento com a contratação de uma empresa para instalar ar condicionado [com "notório impacto nos consumos de energia", digo eu] , mas as poucas existentes no país neste ramo estavam já cheias de encargos nesta época de Verão.»
  5. «de acordo com um socialista da caravana, [no comício de ontem em Braga] o recinto chegou a atingir os 48 graus».
  6. Na sequência desta insuportável temperatura, «cerca de um terço dos presentes no pavilhão do Académico de Braga abandonaram o espaço a meio do discurso de encerramento do cabeça de lista do PS às europeias, Vital Moreira.»

Tenho para mim que, com estes comícios quentes, os estrategas da campanha socialista matam dois coelhos de uma cajadada:

  1. Provocam os benéficos efeitos visuais para os telespectadores irresponsáveis que consomem energia a ver notícias da campanha em salas arrefecidas por ar condicionado que instalaram quando as empresas do ramo estavam vazias de encargos.
  2. Provocam os benéficos efeitos nos espectadores ao vivo de lhes proporcionar uma boa desculpa para não terem de ouvir os discursos de Vital Moreira.

Perante tais benefícios, a "lógica de sustentabilidade e autonomia energética" pode esperar mais uma semanita.

30/05/2009

Maus vizinho

O Dia dos Vizinhos já foi há quatro dias, mas só agora tive conhecimento desta história do vizinho Maus. Deliciosa. Link

Nota: a "notícia" tem todo o ar de ser uma "peta", mas é adequada para a minha dedicatória ao Dia dos Vizinhos ;)

Sobre sondagens

Há uns anos, questionava eu um médico que me dizia que os resultados de análises ao sangue eram óptimos:
Eu: - Mas, sôtor, o valor de X não está acima do limite superior dos valores de referência?
Médico: - Ó meu amigo, isso é uma diferença cagagesimal!

Desde então, esta expressão ocorre-me frequentemente para qualificar as diferenças de estimativas pontuais nas sondagens eleitorais, analisadas pelos jornalistas à décima de ponto percentual. Por exemplo, é habitual os jornalistas escreverem que o candidato A subiu ou desceu 0,5% (entenda-se 0,5 pontos percentuais) da sondagem anterior para a sondagem actual e até construirem grandes dissertações sobre as causas da subida ou da descida. Ora, se as sondagens eleitorais cumprissem os requisitos para serem consideradas 'probabilísticas', o que não acontece, a estatística dir-nos-ia que tal diferença é menos do que cagagesimal. Na linguagem que os estatísticos usam, diz-se que não se pode rejeitar a hipótese de que a diferença entra as percentagens obtidas pelo candidato na sondagem 1 e na sondagem 2 seja zero. De outro modo, poder-se-ia dizer que há 'grande' probabilidade de que a percentagem de A na população seja igual no momento da sondagem 1 e no momento da sondagem 2. Isto acontece em todas as variações reportadas no Expresso, comparando as sondagens divulgadas nas duas últimas edições deste semanário. O que quero dizer, portanto, é que, na maioria das vezes, este exercício de comentar subidas e descidas é construído sobre diferenças nas amostras que não se pode garantir com um mínimo de confiança que correspondam a diferenças na população.

Em períodos eleitorais discute-se muito sobre a validade dos resultados das sondagens. Há uma discussão que é estatística (para nerds, como se diz neste blogue, onde reside uma parte dessa discussão), centrada em "intervalos de confiança", "margens de erro", "significância [das diferenças]". Aconselho todos os interessados no assunto a visitar o referido blogue. Há outra parte que é política e que habitualmente envolve suspeitas sobre a isenção das organizações que fazem as sondagens - curiosamente, este tipo de discussão preocupa-se menos com a falta de rigor com que os resultados das sondagens são "analisados" por jornalistas e comentadores! Não quero entrar agora em nenhuma dessas discussões, mas antes num assunto que fica entre ambas e que se traduz em falta de precisão ou mesmo em falta de validade das sondagens provocada por "erros" que nada têm que ver com o erro de amostragem e que, por isso, não podem ser medidos pelos estatísticos...

As discussões "para nerds" que envolvem fracções, raízes quadradas e até letras gregas, partem de um pressuposto não verificado e que costuma ser escrito desta forma: "todas as unidades de sondagem [neste caso, eleitores] têm uma probabilidade conhecida e não nula de pertencer à amostra". De facto, não se sabe qual é a probabilidade de cada eleitor ser seleccionado para a amostra, sendo este um dos factores de erro importantes que referi. O outro é a formulação das questões, o que devia ser trivial, mas parece que não é. Vou ilustrar com a sondagem publicada hoje no Expresso.

Em primeiro lugar, diz a ficha técnica que «O Universo é a população com 18 anos ou mais, residente em Portugal Continental e Regiões Autónomas, e habitando em lares com telefone da rede fixa». Ficam de fora os eleitores que residem nos cerca de 30% de lares sem telefone fixo. Mas vamos admitir que essa exclusão não afecta em nada a capacidade de generalização dos resultados.
Em números redondos, sabe-se que foram feitas 3000 tentativas de entrevista e concluídas 2500 entrevistas. Esta taxa de resposta é anormalmente elevada, segundo os padrões internacionais para entrevistas telefónicas. Dos que responderam, 500 foram considerados abstencionistas porque (ainda?) não sabem ou não responderam em que partido votariam. As percentagens foram, deste modo, estimadas a partir de 2000 respondentes.
O histórico das eleições para o Parlamento Europeu e a opinião de analistas convergem na ideia de que dificilmente a abstenção será menor do que 60%, ou seja, mantendo a redondeza dos números, há 1000 respondentes à sondagem que deveriam ter-se abstido! Ou seja, além de termos muito mais respondentes do que seria "normal" com apenas 3000 tentativas de entrevista, temos o dobro de "votantes", relativamente ao que seria de esperar com 2500 respondentes. Dito de outra forma, poderá verificar-se uma ou ambas das condições seguintes:
  1. Metade dos inquiridos que manifestaram intenção de votar não o irão fazer;
  2. A base de sondagem está enviesada de modo a favorecer a probabilidade de resposta e/ou de o respondente não ser abstencionista.

Num plano especulativo, porque não conheço o questionário nem os números brutos da sondagem, apenas as percentagens dos resultados e a ficha técnica divulgadas pelo Expreso, poderei dizer que a condição 1. (podendo depender de 2.) depende das perguntas efectuadas - se houver uma pergunta-filtro sobre a intenção de votar / abster e só se perguntar o voto aos não-abstencionistas encontra-se um resultado; se houver apenas uma pergunta sobre a intenção de voto nas listas, o resultado é diferente.
No que respeita à condição 2., há que saber como se constroem as bases de números de telefone a partir das quais se seleccionam os lares e quais são os mecanismos ditos aleatórios de selecção. Sobre este assunto, por acaso (?) tenho uma experiência pessoal a relatar: no espaço de cinco meses, o meu n.º de telefone foi seleccionado quatro vezes pela mesma empresa para sondagens de opinião sobre diversos assuntos, dois dos quais opiniões sobre política. Não sei quantas sondagens a dita empresa fez nesse período, mas sei que a probabilidade de o mesmo n.º ser seleccionado quatro vezes é mesmo muito baixa... a não ser que a condição 2. seja mais do que uma mera suspeita infundada...

26/05/2009

Sua excelência

Junta-te a nós, professor,
Que comigo vais levar
A cada canto, a cada lar
O nosso azul computador
Que comigo vais levar
A cada canto, a cada lar
O nosso azul computador.
Avante, camarada, avante,
Junta a tua à nossa voz!
Avante, camarada, avante, camarada
E o Sócrates brilhará para todos nós!

«Estamos a assistir a uma revolução na educação» afirmou Vital Moreira no final de uma visita à Escola Básica Paulo Quintela de Bragança. Espera-se que o candidato clarifique a classificação da revolução - será uma Grande Revolução Cultural?
Mas ter dito que «o PS escolheu de propósito um distrito do interior para mostrar como a excelência não escolhe territórios» é a mesma coisa que dizer que a EDP constrói barragens para proteger o ambiente ou que o ovo Kinder é aconselhado às crianças porque tem mais leite e menos cacau. Eu não nego a revolução. Mas eu próprio me revolto quando um professor universitário tem a suprema lata de associar o conceito de excelência à revolução em curso.

25/05/2009

Ah pois 'tou!

Quem o diz é Rui Tavares, na sua coluna de opinião na última página do Público. Concordo. Entre muitos enganos, estou enganado porque os partidos escrevem uma coisa nos chamados "documentos programáticos" e fazem outra, muitas vezes o oposto, na sua prática política. Mas o engano que me levou a escrever este post é ilustrado pelo último parágrafo daquela crónica: «Vá votar noutro (ou noutra). Não vote em mim».

Os partidos não se decidem sobre qual dos Vitais tem razão: o Vital que defende a liberdade e responsabilidade do deputado ou o Vital que defende que o deputado é apenas um número sujeito a disciplina de voto (vulgo carregador de botões). Enquanto isso, eu não posso votar em Rui Tavares, nem noutro, nem noutra, só posso votar em partidos. Eu não posso votar em Ariana Meireles, porque ela aparece em 19.º lugar numa lista em que Rui Tavares é 3.º. Eu não quero votar PS porque não quero eleger um senhor Manuel dos Santos, que uma vez se me dirigiu do volante de um Mercedes de matrícula belga para pedir uma informação e se esqueceu de me agradecer! E não poderia votar PS, mesmo que concordasse com os "documentos programáticos", sem eleger esse senhor.

Espero que um dia seja possível votar num partido e em candidatos dentro das listas partidárias. Sentir-me-ei menos enganado.

24/05/2009

Foto da semana

Foto do rio Olo, nas chamadas Fisgas, Parque Natural do Alvão.
Elejo-a como foto da semana por ter sido divulgada a proposta do WWF España para desmantelar 20 barragens de modo a «restaurar los ríos de nuestro país para mantener su biodiversidad, reconstruyendo los ecosistemas afectados por las presas». Ou seja, um avanço relativamente à posição que já era conhecida de alerta para os efeitos negativos das barragens que o plano hidrológico espanhol projecta para os parques naturais e áreas protegidas.
Esta foto, que fiz numa das minhas caminhadas pelo PNA, capturou uma vista que deixará de ser possível se vier a concretizar-se o transvase das águas do rio Olo para a bacia do rio Torno/Louredo de modo a alimentar os caudais na barragem de Gouvães (Iberdrola). Perder-se-á um belo rio cujas águas refrescantes são bastante apreciadas por estrangeiros! Pelo menos, até haver um plano para desmantelar a barragem de Gouvães e "libertá-lo".