18/05/2009

As minhas escolhas

Com algumas horas de atraso, as escolhas da semana são inspiradas na vinda a Viseu de Edgar Morin, no próximo dia 22:

Educar para a Era Planetária
Piaget, 9,45€
«(...)a nossa formação escolar e universitária continua a fazer de nós cegos políticos e impede-nos de assumir a nossa condição terrestre». Para refrear o entusiasmo das Novas Oportunidades e das estatísticas sobre "qualificação" e "certificação".


Introdução ao Pensamento Complexo
Piaget, Esgotado?
«Os problemas humanos são abandonados não apenas a este obscurantismo científico, que produz cientistas ignaros, mas também a doutrinas obtusas que pretendem monopolizar a cientificidade com ideias-chave tanto mais pobres quanto pretendem abrir todas as portas como se a verdade estivesse encerrada num cofre-forte de que bastaria possuir a chave».

16/05/2009

Foto da semana

A linha do Tua volta a estar em foco na Foto da Semana, já que, de acordo com um despacho da Lusa (Público - ecosfera), a Declaração de Impacto Ambiental divulgada esta semana sustenta que «de modo a garantir e salvaguardar os interesses e a mobilidade das populações locais e potenciar o desenvolvimento socioeconómico e turístico, a DIA obriga a que seja assegurado o serviço de transporte público da linha férrea do Tua no troço a inundar».

Registo que seja preciso inundar as linhas existentes para que o Estado se preocupe com «os interesses e a mobilidade das populações locais». Quanto ao desenvolvimento turístico, o assunto merecerá atenção, brevemente, em post próprio...

Foto @Brunheda, Março de 2008


Dos 5 aos 18

A propósito do projectado alargamento da escolaridade obrigatória para o 12.º ano / 18 anos de idade, tem perpassado a ideia (por exemplo, aqui) de que esta medida:
(i) está em vigor na maioria dos países europeus e, (ii) particularmente, naqueles cuja população activa é mais qualificada.
A primeira afirmação é evidentemente falsa. A segunda também não é verdadeira, pelo menos a julgar pelo indicador que o próprio Ministério da Educação apresenta para a justificar - a taxa de saída precoce do sistema de ensino, i.e. a percentagem de jovens entre os 18 e os 24 que não completaram o secundário e não estão no sistema.
O ME produziu um "Documento de trabalho para a Audição de Peritos" (audição de peritos depois de tomada a decisão!) - disponível em PDF aqui - onde apresenta uma tabela com a escolaridade obrigatória (em anos de escolaridade e em idades limite) e as taxas de saída precoce. Eis a transcrição do documento no que respeita à leitura da tabela:
«A relação entre os anos de escolaridade obrigatória e o abandono escolar precoce não é linear. Assim, numa abordagem cruzada da duração da escolaridade obrigatória e das taxas de abandono escolar precoce, é possível dizer que não havendo uma correlação visível entre a duração da escolaridade obrigatória e os resultados escolares medidos pelo abandono escolar precoce, os países com elevadas taxas de abandono são – exceptuando Malta – países com escolaridade obrigatória de duração relativamente curta. Estes resultados não desaconselham, antes pelo contrário, a introdução da escolaridade obrigatória até aos 18 anos ou até à conclusão do secundário em Portugal. Porém, experiência de outros países mostra que não basta essa obrigatoriedade para obter os resultados esperados. De facto, são vários os factores que interferem negativamente no abandono escolar precoce e, se nenhum deles resulta da duração mais prolongada da escolaridade obrigatória, muitos podem condicionar os respectivos efeitos.»
Os acérrimos defensores do alargamento aos 18 anos não costumam citar esta leitura, nomeadamente que "são vários os factores que interferem negativamente" na suposta relação negativa entre obrigatoriedade e saída precoce, para a qual o documento afirma não haver "correlação visível".
Voltando ao documento, registo que, não vendo a tal correlação, os autores permitem-se concluir que «os países com elevadas taxas de abandono são – exceptuando Malta – países com escolaridade obrigatória de duração relativamente curta.» Noto o relativamente e a excepção maltesa :) e acrescento que essa conclusão não é indubitavelmente fundada nos dados apresentados. Para mais fácil leitura, apresento os dados publicados no documento no gráfico abaixo, ordenado pela taxa de saída, representando a vermelho os países com 12 ou 13 anos de escolaridade obrigatória, a azul os que têm 10 ou 11 anos de escolaridade obrigatória e a preto aqueles onde a escolaridade obrigatória não ultrapassa os nove anos.


Se nos concentrarmos não nos países com maior taxa de saída, mas, pelo contrário, nos que têm maior taxa de conclusão do secundário, poderemos reescrever a conclusão do documento, desta forma: os países com as mais baixas taxas de abandono são – exceptuando a Polónia – países com escolaridade obrigatória de duração relativamente curta. Isso é bem visível na parte inferior do gráfico, no primeiro quartil (saída < 10%).

Qual das conclusões é mais "manipuladora" - a minha ou a dos autores do documento para audição de peritos?

14/05/2009

Está tudo ligado à net

Fiquei estupefacto quando hoje li os títulos de diversos media portugueses sobre um "Inquérito feito pela SurveyShack a pedido da Microsoft":

Jornal de Negócios: Três em cada quatro portugueses estão ligados à Net
RTP: Portugueses são os europeus que estão mais tempo ligados à Internet com o impressionante subtítulo: "Estudo revela que os portugueses são o povo europeu com maior ligação à Internet"
Diário Digital: Estudo: Portugal é o que tem mais cibernautas online
Público: Portugueses entre os europeus que mais utilizam a Internet
[edit 14-5-2009 22:56UTC]Entretanto, esta notícia do Público ficou sem conteúdo, mantendo-se apenas a de João Pedro Pereira que corresponde à versão impressa do jornal[/edit]

Nenhum jornalista se perguntou como poderiam ser verdadeiros os números que receberam (da Microsoft?). Isto devia ser preocupante para os media - demonstra que os jornalistas, esses sim, passam demasiado tempo online e sobra-lhes pouco para pôr os pés no chão.

Vejamos um exemplo da prosa, neste caso, no Público:«Além de revelar que três em cada quatro cibernautas portugueses estão sempre ligados à Web e um quinto (19 por cento) dos inquiridos lusos passa mais de cinco horas online, o estudo demonstra que 14 por cento dos internautas portugueses estabelece ligação à Web mais do que duas vezes por dia e 22 por cento passa uma a duas horas durante uma sessão normal na Internet.»
É difícil (pelo menos, para mim!) compreender como a informação contida neste parágrafo não é contraditória, mas mais difícil se torna quando, mais abaixo, a mesma notícia do Público diz que «39 por vento [sic] passam entre sete e 15 horas online por semana». Ora, eu imagino que quem passe entre sete e 15 horas não possa ser incluído nos que «estão ligados à Web em permanência», que são 76%; só a soma destes dois grupos já dá 115% de cibernautas!

Mas o prémio de ligado à net vai para a notícia da RTP: «Um inquérito da Microsoft refere que um em cada cinco portugueses passa mais de cinco horas por dia a navegar no ciberespaço. (...) É um dado revelador, já que o mesmo estudo conclui que um em cada quatro utilizadores da Internet na Europa passa entre sete e 15 horas online, mas por semana

Ora bem, a vantagem de "estar online", é ter acesso a informação que desmente completamente esta notícia, ou melhor, a forma como é apresentada, com títulos verdadeiramente fantasiosos. É preciso, em primeiro lugar, dizer que este "Inquérito feito pela SurveyShack a pedido da Microsoft" foi feito online, i.e. responderam cibernautas que passam tanto tempo online que até ocupam algum desse tempo a responder a inquéritos. Em segundo lugar, convém dizer que há inquéritos harmonizados na UE sobre a frequência de utilização da Internet, os quais revelam que a posição dos portugueses é na cauda da Europa, muito longe de sermos «o povo europeu com maior ligação»! Em Portugal, o inquérito é realizado pelo INE (metodologia disponível aqui) e os resultados são apresentados pela UMIC (aqui). Para comparações com a Europa, supostamente liderada por nós :), estão disponíveis os dados no Eurostat (aqui).

Então, começando pela notícia da RTP que ganhou o prémio, os números mostram que, considerando apenas os portugueses entre os 16 e os 74 anos que utilizaram Internet nos últimos três meses, 20% esteve online menos de uma hora por semana e 53% menos de 5 horas por semana. Apenas um quarto dos cibernautas portugueses passou mais de 20h online por semana.

Estes são os resultados dentro da população que utilizou internet pelo menos uma vez no trimestre de referência. O pior para a suposta liderança portuguesa é precisamente essa fatia da população que acede à net. 29% dos portugueses entre os 16 e os 74 anos acede à net "todos os dias ou quase todos os dias"; na UE27, são 43%. 38% dos portugueses entre os 16 e os 74 anos acede à net "pelo menos uma vez por semana"; na UE27, são 56%.

Aqui fica a demonstração de como a utilização da net é menor em Portugal do que na Europa. Ela é idêntica até aos 24 anos, mas depois é que são elas...

13/05/2009

Assessores míopes, assessorado insone

O Primeiro Ministro de Portugal vem produzindo declarações que justificam cabalmente os problemas de orientação da governação deste país.

Na famosa cumbre de El Salvador, revelou que «todos os meus assessores usam este computador», ou seja, o Classmate PC (vulgo Magoolhães), propenso à «síndrome da visão de computador» e ao «aumento da prevalência da miopia».
Ontem, na inauguração de um Centro Social Paroquial (!), reconheceu que «não durmo a pensar nisso» [desemprego]. O sr. Primeiro Ministro identifica-se assim com os portugueses em geral, que «são os que dormem pior por causa da crise». Ora, como bem diz a presidente da Associação Portuguesa de Sono, a insónia provoca «irritabilidade, diminuição do desempenho no trabalho, falta de concentração, esquecimento», sintomas que o Primeiro Ministro tem profusamente revelado.

Caros concidadãos, quereis continuar a ser governados por um Primeiro Ministro insone assessorado por míopes?

12/05/2009

Namoro turco

Caro JMF, "conquista" faz-me lembrar a espada de Osman. Prefiro dança do ventre.

Casamento? O método costumeiro que atribui à família da noiva a responsabilidade de escolher o consorte arrisca-se a “enfrentar obstáculos e resistências das opiniões públicas”, seguramente maiores do que as dos "obstáculos e resistências" ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Aconselha-se, portanto, "alguma paciência". E, já agora, que outros costumes não interfiram nas bodas.

ABC das reuniões

O jornalista Nelson Morais afirma no JN que «O inquérito requerido pelo Conselho Superior do Ministério Público, a 7 de Abril, conclui que o presidente do Eurojust, Lopes da Mota, pressionou os procuradores do Freeport e deve ser alvo de um processo disciplinar.» O currículo de Lopes da Mota, nomeadamente o arquivamento de um processo anterior, pode ser visto aqui.

O Público refere que ABC confirmou, na Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, «um encontro com Lopes da Mota na semana em que este terá conversado com os dois procuradores do Freeport», mas isso tratar-se-á de uma mera coincidência.

Mais interessante é o ministro ABC ter dito na mesma Comissão que «nos últimos anos, reunira-se "dezenas de vezes" com o presidente do Eurojust». Nelson Morais «questionou Alberto Costa sobre a agenda desses encontros e as competências reservadas ao Governo no relacionamento com o Eurojust», não tendo obtido esclarecimentos adicionais. O jornalista estranha tão elevado número de reuniões, uma vez que Lopes da Mota «depende directamente do PGR». Que se há-de fazer? ABC tem uma propensão para reunir!