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15/09/2010

O emprego segundo o Eurostat

À espera da reacção de Valter Lemos, deixo as minhas impressões do gráfico abaixo, a partir dos dados do Eurostat sobre o emprego na UE hoje publicados:
  1. Há hoje em Portugal menos empregados (-6100) do que há 10 anos.
  2. O Primeiro Ministro que prometeu "criar" 150 mil empregos, apenas permitiu que se acentuasse a tendência que já se verificava antes da sua chegada ao poder - enquanto cresceu, o emprego em Portugal cresceu a uma taxa inferior à da UE.
  3. A sazonalidade do emprego é mais acentuada na UE do que em Portugal. Na actual tendência descendente, o emprego na UE ainda cresce nos trimestres "bons"; em Portugal, nem por isso.

12/08/2010

Minha querida sondagem

O INE estima que, em 2009, 2,6 milhões (29%) de portugueses maiores de 15 anos (9 milhões) dormiram pelo menos uma noite fora da residência habitual, por motivo de lazer, recreio ou férias. Dos 2,6 milhões de turistas, 230 mil (9%) viajaram para o estrangeiro. Ou seja, o maior e mais fiável estudo sobre as viagens dos portugueses, feito segundo as normas europeias sobre a matéria, estima que 2,5% dos portugueses maiores de 15 anos fizeram uma viagem de lazer ao estrangeiro que tenha implicado, pelo menos, uma dormida fora da residência habitual.

Estes números são fresquinhos e vêm a propósito de um artigo de Ana Sofia Fonseca no Diário Ecómico de ontem, intitulado "Meu querido mês de Agosto", o qual recupera o malfadado "estudo elaborado pela Marktest para o portal de reservas Hotels.com", para assegurar que «34% dos inquiridos mantém a ideia de ir para fora». No parágrafo anterior, a jornalista menciona o estudo da GFK para o WSJ, segundo o qual 2 em cada 3 portugueses não sairiam de casa, resultado que deixa o director de marketing da Soltrópico «de sobrolho franzido».

Na realidade, a sondagem da GFK não perguntava se as pessoas iam viajar, mas quanto iriam gastar em viagens de lazer. Os 66% correspondem à percentagem de portugueses que escolheram a opção de resposta: «Nenhum, vou ficar em casa, não viajo». Apesar da pergunta não ser a mais indicada, os resultados assemelham-se aos do inquérito do INE às viagens dos residentes em Portugal e a outros estudos que têm sido feitos sobre o assunto - apenas 1/3 dos portugueses faz viagens de lazer. Não há dados seguros sobre quantos fazem viagens "de férias" (mínimo de quatro noites), mas não serão mais de 1/5. Férias no estrangeiro são privilégio de cerca de 3% dos portugueses. O facto de eu, a Ana Sofia Fonseca, os seus entrevistados e os clientes da Soltrópico fazermos parte desse grupo restrito, não nos deve afastar da noção da realidade vivida pela população portuguesa.

Então, porque é que a sondagem da GFK dá resultados próximos dos obtidos pelo INE e pelos estudos científicos na área, enquanto o "estudo elaborado pela Marktest para o portal de reservas Hotels.com" dá resultados de uma realidade virtual? A resposta é bastante simples: o estudo da Marktest é feito numa realidade virtual! Enquanto a amostra da GFK é retirada da população portuguesa, a amostra da Marktest é um painel de voluntários que preenchem um questionário online, a troco de um voucher. Não é difícil perceber que esse painel não é representativo da população portuguesa.

Leitura complementar: Atitude patriótica.

04/07/2010

As minhas escolhas

Economia Portuguesa : As últimas décadas

Fundação Francisco Manuel dos Santos, 3,5€

Quem não tiver tempo para ler as 90 e tal páginas, pode passar directamente aos gráficos, são bem elucidativos.
Em termos absolutos, o nosso PIB é hoje o dobro do que era antes do 25 de Abril. No entanto, em termos relativos, pouco nos aproximámos dos países mais desenvolvidos, com a agravante de termos "andado para trás" na última década.
Nos últimos 20 anos do Estado Novo a economia cresceu sustentada (também) nos ganhos de produtividade. Depois de 1974, a economia cresceu (quando cresceu!) à custa do aumento da taxa de actividade, do dinheiro que nos "deram" (comprimidos azuis) e do endividamento.
«No futuro, nem as disponibilidades de financiamento externo nem a reserva de mão-de-obra voltarão a estar disponíveis da mesma forma. Torna-se assim claro o grande problema da economia portuguesa: a produtividade no longo prazo».

25/06/2010

Aritmética simples

Como diz João Miranda, não há nada mais fácil.
Há três vias para financiar auto-estradas:
  1. Cobra-se uma taxa aos utilizadores.
  2. Aumenta-se os impostos.
  3. Diminui-se outra despesa do Estado (ex: despedir funcionários públicos; reduzir comparticipação dos medicamentos; obrigar os beneficiários do Magalhães a pagá-lo; etc.)

O resto, ou é iliteracia ou demagogia.

Adenda: gostei desta visão sobre a coisa.

13/06/2010

Atitude patriótica

Como os leitores terão suspeitado, dada a interrupção na postagem, estive uns dias "fora". No caso, como "toda a gente que interessa", "fora" foi "cá dentro". O que não impede que parte das minhas despesas nesta actividade turística vão para fora: o proprietário da casa que aluguei reside no Reino Unido; o condomínio foi construído por espanhóis e é mantido por empregados "de Leste"; várias refeições foram-me servidas por brasileiros; etc. Certinhos para ficar "cá dentro" são o ISV, IUC, ISP, IABA, IVA, IRC e IRS (e mesmo estes, como sabemos, apenas transitam pelos cofres porque haverão de ser reclamados por quem de direito!) directa ou indirectamente cobrados na sequência desta minha - sei-o agora - "atitude [sic] patriótica".

Em consequência da minha abstinência de net, só hoje tive conhecimento de uma suposta polémica entre titulares de órgãos de soberania sobre os benefícios de passar férias "cá dentro". Na terceira parte da contenda, o Presidente da República "rematou" [sic]: «Sei muito bem daquilo que falo, porque conheço os números». Acredito que, se Cavaco Silva tivesse um blogue, haveria de ter uma extensa tag "Números" :) Este blogue também gosta de números, pelo que aqui ficam uns que interessam ao tema:
O gráfico representa a varição nominal de três variáveis:
a linha verde representa as despesas das «férias passadas no estrangeiro [que] são importações e aumentam a dívida externa portuguesa»;
a linha vermelha representa as receitas que, seguindo a mesma lógica, são exportações e diminuem a dívida externa portuguesa;
a linha azul representa o consumo gerado pelo turismo, quer dos residentes, quer dos não residentes.

Como o Presidente da República conhece os números, sabe que os portugueses já lhe fizeram a vontade em 2009, i.e. gastaram no estrangeiro menos 8% do que haviam feito em 2008 (a bem da verdade, alguns desses patrióticos não são turistas, já que as despesas feitas em Espanha pelos trabalhadores que mantêm residência em Portugal entram nesta rubrica). E sabe também que a diminuição da despesa (importações) não chegou para compensar a perda de receita (exportações). Ou seja, sabe que o facto de os portugueses gastarem menos no estrangeiro não impediu que, comparativamente a 2008, a "dívida externa" tenha aumentado 300 milhões de euros "por causa" do turismo.

Mais: ao contrário do ministro do golfe, que acreditava em sondagens online para dizer «fico triste ao ver que os portugueses preferem ir para o estrangeiro» (agradeço a Helena Matos a recuperação deste link), Cavaco Silva sabe que é muito reduzido o número de portugueses que faz férias no estrangeiro, pelo que o seu apelo não poderá ter significativos efeitos práticos.

21/05/2010

O que se passa no Governo de Espanha?

O ministro das Obras Públicas do Governo de Portugal, disse hoje aos jornalistas: «Falei quinta feira com o meu homólogo, José Blanco, e ele ficou muito impressionado com as notícias que estavam a circular em Portugal, dizendo-me que não tinham qualquer fundamento». Significa portanto que a intervenção do próprio José Blanco no Congresso dos Deputados (V. no post anterior o que destaquei dessa intervenção) "não tem qualquer fundamento".
Ontem eu tinha dito que é Ferreira Leite que governa Espanha :) Hoje parece que é António Mendonça. É que, acreditando no senador estremenho José Miguel Camacho, eleito pelo PSOE, o Ministro de Fomento não sabe qual o impacto que os cortes do seu ministério terão na construção da linha Madrid-Lisboa: «No puedo anticipar si afectará al AVE Madrid Lisboa, entre otras cosas, porque ni el propio ministro lo sabe».

20/05/2010

Espanhol técnico

Ya nada volverá a ser como antes. Todos los que estamos aquí, somos conscientes de que este nivel de inversión no se puede mantener. Estamos revisando nuestra planificación. Sé que Alcaldes y Presidentes de Comunidades Autónomas, Diputados y Senadores, de todos los partidos, todos los que aquí estáis, también del mío, van a expresar sentimientos de agravio. Probablemente nadie se quede contento. Pero no es momento para el victimismo. Es el momento de la racionalidad, del sentido común y de la responsabilidad.
(...)
Los ciudadanos no entenderían, que cuando se les pide un esfuerzo en sus economías personales y familiares, el sector público no haga lo mismo, y sigamos construyendo más y más infraestructuras, cuando las prioridades del país, ahora, son otras.

Por todo ello, vamos a abordar esta situación reprogramando la mayoría de las inversiones que estamos acometiendo y reconsiderando las que no son imprescindibles. Esto se traduce en que vamos a posponer nuevas licitaciones, demorar plazos de finalización de obras, suspender temporalmente actuaciones e [sic] incluso anular contratos en ejecución.
(...)
Pero con carácter general, todas las actuaciones tanto en carreteras, como en ferrocarriles, sufrirán un retraso medio de al menos un año en los plazos de ejecución. Con la salvedad de aquellas que podamos licitar o complementar a través del Plan Extraordinario de Colaboración Público-privada. En estos casos, se podrán mantener los plazos.

Está tudo aqui (para os cépticos, trata-se da intervenção de Pepe Blanco - o presidente do governo de facto, desde que o Zé Luis caíu do cavalo - na Comissão de Fomento do Congresso dos Deputados). Serve para provar que, a menos que caiba no Plano Extraordinário das PPP's, a linha Madrid-Poceirão sofrerá, na melhor das hipóteses, "un retraso".

La presidenta del Gobierno es... Manuela Ferreira Leite

«Sei o que disseste no Verão passado», terá pensado de Ferreira Leite o ministro do Fomento de Espanha, José Blanco.
Como na altura aqui escrevi, foi através dos espanhóis que tomei conhecimento da proposta de Ferreira Leite, em Agosto de 2009, de «Suspenderemos inmediatamente los procesos de adjudicación en curso para la alta velocidade», «priorizando la rehabilitación y desarrollo de la red ferroviaria convencional».
E foi através do mesmo periódico que hoje li que Blanco está a levar à prática as propostas da ex-líder do PSD: “Todas las actuaciones, tanto en carreteras como en ferrocarriles, sufrirán un retraso medio de al menos un año en los plazos de ejecución”, declaró el ministro. O ministro disse ainda que «se otorgará prioridad a las obras de “mantenimiento, mejora y explotación, frente a las de nueva construcción”, especialmente en los proyectos relacionados con la red de ferrocarril de alta velocidad».

Só me causa espécie este pormenorzito: na altura, os espanhóis criticaram MFL por «no cumpliendo así los pactos internacionales firmados con España», o que logo suscitou um apedrejamento na nossa praça. Estou para ver se os lapidadores vão agora a correr aos espanhóis exigir o TGV (aproveitem e tragam também Olivença).

P.S. O DN colocou online a notícia das medidas de Blanco, mas preferiu destacar no título que «reduz administradores e salários»! Diz ainda que as obras «prioritárias como as da rede ferroviária de alta velocidade» escapam ao corte, o que é contraditado pelos jornais espanhóis, os quais garantem que o «AVE a Valencia» é a única excepção.
P.P.S. Ainda o DN: «O adiamento do projecto de alta velocidade pode levar à perda de fundos da UE e ao pagamento de indemnizações a Espanha para cobrir os custos e perdas pela "suspensão unilateral" do TGV, avisou ontem o ministro das Obras Públicas». Este não foi encornado, foi corneado pelo touro Osborne.
P.P.P.S. Com muitas horas de atraso, os principais OCS nacionais começam a divulgar a notícia da suspensão.

Leituras complementares do "Verão passado":
"O argumento do respeito por tratados internacionais", comentário de Carlos Eduardo da Cruz Luna neste blogue.
"O Património Ferroviário do Vale do Douro", artigo meu sobre o facto de os castelhanos, pela segunda vez na História, estarem-se nas tintas para a Linha do Douro.
"A vingança de Manuela Ferreira Leite", opinião de Carlos Cipriano, onde se fala sobre a primeira vez que os castelhanos se estiveram nas tintas...

16/05/2010

De Espanha, nem bom vento, nem bom TGV

Poucos dias após o Governo de Espanha ter «caído del caballo de su utópica revolución de la energía verde», parece que os espanhóis também se deram conta de que têm demasiados aeroportos e demasiados quilómetros de alta velocidade!
«"Lo que a veces se justifica como inversión social no lo es. Si lo fuera, que hagan AVE y aeropuertos en cada pueblo" espeta Germà Bel, catedrático de Economía Aplicada y experto en infraestructuras de la Universidad de Barcelona. A su juicio, para ahorrar, "se deberían paralizar los gastos del AVE, son una extravagancia, vamos a tener más kilómetros que Francia y Japón y, sin embargo, muchos menos pasajeros, es absurdo", recalca.
(...)
«En su opinión, y también la de De Rus, también hay una sobreoferta de aeropuertos. De los 48 aeropuertos públicos dependientes de AENA, sólo nueve tienen beneficios. Y el déficit del ente público gestor asciende a 15.000 millones.
(...)
«"Pues sí, hace falta más transporte de mercancías por ferrocarril, pero a lo mejor no hace falta construir muchas vías, sino reaprovechar las existentes... Tenemos que superar ese síndrome constructivo", advierte Miralles-Guasch [profesora de Geografía de la Universidad Autónoma de Barcelona].»

Zapatero caíu do cavalo e acabará provavelmente no divã a tratar o síndroma da construção. Por cá, circulam rumores de que o seu mimo Sócrates terá caído da cadeira e o Governo está no divã com o seu transtorno bipolar.

10/05/2010

Alterações climáticas

Para os cépticos, aqui fica a prova inequívoca de que as alterações climáticas mexem no nosso bolso:

«Segundo Constâncio, a mudança do clima internacional vai obrigar a um ajustamento "mais abrupto, mais rápido e mais severo".»

«Vítor Constâncio salienta que há necessidade de “adopção de novas medidas que, de forma convincente, reduzam o défice orçamental deste ano e do próximo, visivelmente mais do que se encontrava previsto no nosso PEC”.»
Imagem: Cata-vento de Barry Norling

06/05/2010

Fado do 31 no Clube do Cais do Sodré

Os participantes, maioritariamente economistas e gestores, embora com alguns (poucos) empresários à mistura, mantêm o apoio aos principais investimentos públicos, como a linha Lisboa-Madrid de TGV, a Terceira Travessia do Tejo (TTT) e o novo aeroporto de Lisboa, defendendo alguns que o "reescalonamento" de alguns dos projectos, que já se verificou, é suficiente. 


À porta da Brasileira
Dois tipos encontram dois.
Juntam-se os quatro e depois
Lá começa a cavaqueira.
Agrava-se a chinfrineira
Vai aumentando o zun-zum
Vai pum, arrebenta de boom

29/04/2010

Defesa mansa

João Miranda faz aqui algumas perguntas interessantes. Eu apenas sei responder à última.

P - Por que motivo os especuladores, entre tantos países, escolheram Portugal para atacar?
R- Porque o Ministro da Defesa anda muito manso.

13/04/2010

Alavancagem

Depois do Milagre da Rosa, o Ministério das Finanças descobriu outro filão - o empréstimo à Grécia. Diz-se que "cada português vai emprestar 73 euros para salvar a Grécia", mas, como os portugueses não têm dinheiro, vão pedi-lo a outros antes de o emprestrarem aos gregos. Diz-se também que o vão pedir a um juro inferior ao que vão emprestar, o que parece ser muito bom negócio.
Melhor negócio seria pedir dinheiro a esse mesmo juro e aplicá-lo em obrigações que rendem praticamente o mesmo, mas que têm um benefício social imcomparavelmente maior! Seria um investimento muito mais bem empregue!

04/04/2010

As minhas escolhas

Isabel de Aragão: Rainha Santa
Imprensa Nacional Casa da Moeda, 7,5€
Original de 1936, com várias reimpressões. A da capa conta com prefácio de José Mattoso.
Era uma vez uma República governada por um Príncipe armado em charmoso e obcedado pela sua imagem, que gostava de oferecer rosas aos súbditos, como prova da afectuosidade da sua governação. O Ministro das Finanças estava cada vez mais preocupado com o "impacto orçamental" da "política de charme" do Príncipe e foi aos arames quando viu este vídeo onde o Príncipe aparece rodeado de despesistas a distribuir rosas.


Interpelado pelo Ministro, o Príncipe explicou-lhe que sabia muito bem o estado das finanças da República e que as rosas oferecidas são milagrosas. São mutantes das que apareceram no regaço da Rainha Santa, originárias de dinheiro, como toda a gente sabe. Têm a capacidade de se transformar em dinheiro que vai faltar aos pensionistas e aos beneficiários do RSI. Algumas são capazes de produzir um odor que apaga da memória as promessas de investimento. De tal modo que o cartaz que aparece no vídeo passará a "O Barreiro/ Merece/ As rosas do Governo PS"

Maravilhado, o Ministro ordenou imediatamente à Secretaria-Geral da Presidência do Conselho de Ministros que celebrasse, por ajuste directo, antes que as rosas murchassem, um contrato de fornecimento de flores. Com um irrisório investimento de 63 mil euros, o Ministro será beatificado pelo controlo do défice em apenas três anos. Nada Mais Nada Menos.

28/03/2010

O Monumento e a Bandeira

«O Programa de Estabilidade é um exercício virtual que os Estados apresentam para obedecer ao Diktat de Frankfurt de 1998», diz Medeiros Ferreira. Virtual ou não, o PEC já funciona como bandeira: «independentemente de se gostar ou não gostar do Programa de Estabilidade e Crescimento, temos que nos colocar na posição de defender Portugal perante o estrangeiro», disse o Presidente da República. «Segundo o Presidente, o país deve ter “muito cuidado” para não contribuir para que os mercados internacionais julguem mal o programa português porque assim as famílias e as empresas terão ainda de pagar “juros mais elevados”.»
E assim, um "exercício virtual" para rater ver, parece confirmar «um bloco central de palácios, paradoxalmente construído entre São Bento e Belém», nas palavras de Pedro Adão e Silva - «Se for este o caminho, chegaremos a 2013 com os partidos menorizados e um país politicamente ainda mais pobre».

É neste contexto que se compreende o aparecimento de uma grande bandeira monárquica junto ao monumento fálico ao 25 de Abril.


Cagagésimo

Nas últimas crónicas de Março, o deputado Acácio Pinto deu em preocupar-se com o PSD, como se os problemas do PSD fossem mais importantes do que os problemas do país. Para isso, procurando exemplificar divisões dentro daquele partido, veio publicamente em defesa do PEC, com o mesmo rigor com que fala/ escreve sobre energias renováveis e barris de petróleo :)

Transcrevendo:
«Mas será que o PEC não vai exigir responsabilidade e esforço aos portugueses? Claro que vai exigir. E vai sobretudo exigir um maior esforço àqueles que mais podem e que mais recebem, por exemplo, com a criação de um novo escalão de tributação de 45% em seio de IRS.
Igualmente se prevê um retardamento do investimento de algumas obras públicas para que os seus impactos não tenham efeito directo no período de execução do PEC.
Ou seja, o que o Governo e o PS querem é, sem descurar a coesão e solidariedade social, prosseguir uma linha de rigor e de justiça para, até 2013, podermos ter novamente um défice inferior aos 3%.» (sublinhados meus).

Para demonstrar que a afirmação do deputado Acácio Pinto não corresponde à verdade, não é preciso invocarmos o PSD, basta-nos reproduzir as declarações de conhecidos militantes do PS:

Paulo Pedroso: «"Repare-se que, em 2011, o Estado vai buscar mais aos pobres do que ao adiamento das infra-estruturas, e que vai, afinal, e para minha surpresa, buscar a estas prestações mais do que à famosa nova taxa de IRS de 45%

«João Cravinho diz que o Governo “caiu numa armadilha terrível com este PEC” porque “deixou cair, sem salvaguarda, sem cuidado, bandeiras de esquerda que, aqui há dois meses, ainda afirmava e que eram parte integrante do seu programa com grande relevo”. »

Efectivamente, caríssimo deputado, a receita gerada pelo escalão dos 45% é um cagagésimo, já que, como todos sabemos, é bastante reduzido o número de portugueses que declaram rendimentos do trabalho superiores a 150 mil euros. É de tal modo insignificante que o Governo nem lhe dedica uma linha no quadro dos "Principais Impactos, a partir de 2011, das Medidas de Consolidação das Finanças Públicas" (Quadro 2, p. VI), tendo-a adicionado ao "Alargamento e controlo da base contributiva da Segurança Social" para formar a rubrica "Outras medidas de reforço da receita".
Quanto ao que o sr. deputado designa "retardamento do investimento de algumas obras públicas", o seu impacto é zero em 2011 e, no conjunto dos três anos, é apenas uma quarta parte do efeito do congelamento das prestações sociais do regime não contributivo e dos tectos para o RSI e para as transferências do OE para a Segurança Social. Ou, se preferir outra comparação, é também uma quarta parte do efeito do aumento do IRS, sem contar com o tal cagagésimo do escalão de 45%.

Estamos entendidos quanto "a coesão e solidariedade social" patentes no PEC e quanto à "linha de rigor e de justiça" do seu artigo. Só falta um pouco mais de justiça - é que o PEC não dividiu apenas os deputados do PSD, também dividiu os do PS.

25/03/2010

PECável

O assunto está almofadado pelas exibições do Benfica mas, ainda assim, nos dias em que não há jogo, fala-se de PEC p'ra cá, PEC p'ra lá... não percebo porque há tantos portugueses interessados em discutir um plano?!
Um plano deste género é um mero exercício numa folha de cálculo de um Magalhães. Há precisamente 14 meses, o mesmo Ministro das Finanças apresentou um PEC (tecnicamente, uma actualização de um outro PEC). O documento pode ser consultado na íntegra aqui. Nada do que estava planeado nesse plano (o pleonasmo é estilístico...) coincide com o que está planeado no novo plano. Exemplificando, o plano de 2009 previa um défice de 2,3% em 2011; o plano de 2010 prevê um défice de 6,6% para 2011; o plano de 2011 previrá qualquer outra coisa para o défice de 2011; e o défice "real" de 2011 saber-se-á lá para meados de 2012.
Do mesmo modo, o plano de 2009 previa uma dívida pública de 70% do PIB em 2011. O plano de 2010 (gráfico ao lado) prevê 89,4% (92,2% se o Governo não cortasse nas prestações sociais e não aumentasse o IRS) e eu prevejo 93%. Fica aí o gráfico para memória futura...

Parece-me que agora se fala muito do PEC porque se prevêem medidas que vão mexer no bolso dos que pagam impostos sobre os rendimentos do trabalho. Secundariamente, porque uma parte da base de apoio do Governo não concorda com a diminuição de transferências para a segurança social.
No entanto, parece-me (com a ressalva de não ser economista) que nada disto funciona se não houver crescimento do denominador, i.e. o PIB. O mesmo plano confia na recuperação do investimento (que crashou completamente em 2009) e da procura externa para o tímido crescimento do PIB. Precisa-se confiança e competitividade. E é neste ponto que eu tenho uma pergunta para os economistas que sabem fazer contas:
Alguém é capaz de calcular qual o impacto que as "relações perigosas" entre o poder político, os reguladores e as administrações das grandes empresas (banca, utilities, telecomunicações, construtoras, cimenteiras) têm no défice?

P.S. Ao ler este post de um deputado do PSD pelo círculo onde votei, compreendo por que o plano se diz de Estabilidade - significa que o PSD não pode votar contra porque o PR e a direcção (?) do partido confundem deixar o governo cair de podre com estabilidade governativa e esta com "interesse nacional".